O dom de línguas (1/4)

Share
Texto base: 1 Coríntios 14.2,4a, 13-17, 21-25, 27-35

INTRODUÇÃO

No capítulo 14, Paulo estabelece algumas diretrizes para corrigir a forma desorganizada de culto que a igreja de Corinto estava realizando. Para isso, o apóstolo se concentra em dois dons espirituais – o dom de profecia e o dom de línguas. Segundo Paulo, esses dons estavam sendo usados no culto público de maneira equivocada, e, portanto, não estava promovendo a edificação dos participantes.

Todavia, os coríntios pareciam não se importar com relação à ausência de entendimento que havia nos cultos públicos. Eles sequer procuravam compreender tudo o que acontecia. Esse desprezo pelo uso da mente para a compreensão intelectual das coisas estava sendo substituído por um culto eivado pela histeria e focado nas experiências emocionais, as quais eram confundidas com verdadeiras experiências espirituais.

Por outro lado, muitas destas experiências espirituais que os crentes de Corinto experimentaram possuíam influência demoníaca (12.2-3). Tudo isso residia na prática usual de muitos “falarem em línguas” ao mesmo tempo sem interpretação, num estado de “êxtase frenético”, o qual privava os participantes de edificação espiritual (14.14-17,27-28).

O mesmo ocorria com o dom de profecia; todos que possuem esse dom “profetizavam” ao mesmo tempo, o que gerava confusão, em vez de compreensão da mensagem transmitida (14.29-31). A ênfase de Paulo neste capítulo é ressaltar como critério a edificação coletiva, e não um tipo de edificação individual, conforme ressalta os continuacionistas na questão das línguas.

O apóstolo ensinou em Efésios 4.12-13 que os dons foram distribuídos pelo Espírito Santo para o aperfeiçoamento e a edificação dos crentes como igreja. Na lista de alguns dos dons espirituais descrita no capítulo 12 de 1 Coríntios, as línguas se encontram em último lugar (12.28). Agora, no capítulo 14, as línguas se encontram em segundo lugar de importância, estando em primeiro lugar a profecia. Logo, os dons de profecia e línguas deveriam ser exercidos para que promovessem a edificação de todos que estavam presentes no culto público.

Podemos dividir o esboço analítico da seção sobre o dom de línguas em quatro partes:

1) O dom de línguas com relação aos crentes (14.2,4a,21-25). 2) O dom de línguas com relação aos não crentes (14.21-25). 3. A limitação do dom de línguas (14.26-28). 4) Equívocos relacionados ao dom de línguas pelos Coríntios, pelos pentecostais e neopentecostais no presente.

 

EXPLANAÇÃO

  1. O dom de línguas com relação aos crentes(14.2, 4a, 6-11)

Paulo inicia sua argumentação no capítulo 14 doravante à conclusão de sua argumentação sobre a importância do amor no capítulo 13. No versículo 1 do capítulo 14, ele tece dois imperativos diretos e um indireto.

Em primeiro lugar, o apóstolo ordena que os crentes sigam ou busquem com intensidade e determinação o amor. Em segundo lugar, retomando o seu argumento descrito no capítulo 12.31, ele instrui os crentes para que sejam diligentes na procura dos dons espirituais e, de modo indireto, que eles prefiram o dom de profecia em relação aos outros dons.

No entanto, obter o dom de profecia depende, primeiramente, da soberania de Deus; Ele, mediante o seu Espírito, concede os dons a quem quer e como quer. Por conseguinte, obter um dom depende também daquele que o requer. Portanto, os dons que o Espírito Santo confere aos crentes devem ser empregados com amor para o benefício espiritual e material da igreja (veja Rm 12.4-8).

Em seguida, Paulo se concentra num longo trecho sobre a questão das línguas. Ao escrever o capítulo 14, o apóstolo imagina um culto público. Seu intuito é corrigir a maneira equivocada com que esse dom estava sendo exercido no culto como sinal de imaturidade espiritual dos crentes da igreja de Corinto (3.1-4). Assim, ele esboça algumas características do dom de línguas com relação aos crentes. Vejamos, pois:

a) A natureza das línguas (vs.2)

Paulo afirma que aquele que fala em uma língua humana γλωσση (glossa) não interpretada no culto público não comunica nenhuma mensagem que tenha sentido às pessoas ali reunidas, pois elas não são capazes de entender o que está sendo dito; como consequência, não há edificação ou instrução alguma. Logo, somente Deus entende o que está sendo transmitido em outra língua.1

Em Atos 2.4-11, todos os judeus estrangeiros [aqueles que residiam em outros locais onde se falava outras línguas] que estavam reunidos em Jerusalém para a festa do pentecostes compreenderam os idiomas humanos ou dialetos διαλέκτω (dialektos) que foram falados pelos apóstolos. Este não foi um milagre “auditivo”, onde a multidão ali reunida foi miraculosamente capacitada a entender em sua própria língua aquelas palavras. Antes, o milagre foi realizado nos apóstolos, os quais falaram sobrenaturalmente idiomas que desconheciam.

No texto a lume, Paulo não menciona nada referente a interpretação. Pelo contrário, ele escreve que a mensagem transmitida em outra língua sem tradução não é dirigida às pessoas, como no pentecostes, mas a Deus. Assim, os pentecostais e neopentecostais sugerem que as línguas faladas na igreja de Corinto e nas igrejas do século 1 não eram idiomas, como no pentecostes, mas uma língua espiritual incompreensível aos homens, talvez até uma língua de anjos (1Co 13.1), visto que somente Deus a entende.2

Porém, a expressão ainda que eu falasse a língua dos anjos em 1 Coríntios 13.1 é uma hipérbole, isto é, uma figura de linguagem que aumenta ou diminuiu exageradamente uma verdade. Desse modo, Paulo não diz que ele falava a língua dos anjos, pois o texto não menciona nada acerca da natureza da língua falada pelos anjos. Ele também não afirma sobre a possibilidade de os crentes falarem a língua dos anjos. Antes, o apóstolo descreve que ainda que fosse possível ele falar na língua dos anjos [e se realmente existe essa língua], e tivesse todos os dons (13.2), mas se não tivesse amor, ele não seria nada. Portanto, assim como no pentecostes, as línguas descritas em 1 Coríntios 14 também são idiomas humanos.

No fenômeno moderno das falsas línguas, podemos notar que as supostas interpretações são geralmente repreensões, revelações de segredos, predições vagas do que Deus está por fazer e exortações gerais por vezes indefinidas. Uma vez que os pentecostais e neopentecostais afirmam que o que fala em línguas dirige-se a Deus, e não aos homens, as interpretações não deveriam ser uma mensagem do “homem para Deus” e não de “Deus para o homem”?! Com isso, percebemos um concomitante anacronismo em relação ao verdadeiro dom de línguas.

b) O meio pelo qual as línguas são emitidas (vs.2b)

Se alguém que fala em uma língua estrangeira não interpretada não fala às pessoas, mas a Deus, visto que somente Ele entende o que está sendo falado, isto é através do “espírito”. A palavra grega πνενματι (pneuma) pode ser traduzida se referindo tanto ao “espírito” humano quanto ao “Espírito Santo”. Assim, fica difícil saber com exatidão se Paulo faz menção ao “espírito humano” ou ao “Espírito Santo”.3

Dentro do contexto do capítulo 14, Paulo salienta o “espírito humano” duas vezes (vs.14,32). Pessoalmente, acredito que ele tinha em mente aqui o “espírito humano”. Com efeito, aquele que falava em línguas, o fazia pela atuação do Espírito Santo “em seu espírito” sem transmitir a informação à mente. Por isso, aquele que falava em línguas “em espírito” não entendia o que falava.

c) O conteúdo das línguas (vs.2c)

Paulo, agora, declara que aquele que fala em línguas estrangeiras fala a Deus mistérios. Ele utiliza esta palavra no capítulo 4.1, onde se refere aos ministros do evangelho como despenseiros dos mistérios de Deus. Ele utiliza essa mesma expressão no capítulo 2.7-9 para enfatizar Cristo e o Evangelho que foi revelado como o mistério de Deus que esteve oculto na eternidade (veja também Cl 2.2).

No capítulo 13.2, Paulo ressalta que conhecer todos os mistérios é algo pertencente ao profeta. Esses mistérios que eram revelados aos profetas das igrejas locais do Novo Testamento se tratavam da exposição verbal dos aspectos do mistério de Cristo que fora revelado aos apóstolos e, por conseguinte, registrado nas Escrituras. Comunicar os mistérios não é adivinhar os segredos das pessoas presentes no culto, através de uma suposta revelação como fazem os “profetas” modernos; antes, é simplesmente anunciar o grande mistério de Cristo.

Todavia, poderíamos interpretar que os mistérios que Paulo se refere aqui em 1 Coríntios 14 é o mistério de Cristo, embora seja empregado o plural – mistérios. A lógica dessa interpretação é que aquele que fala em línguas transmite o evangelho a Deus. Contudo, qual é o sentido disso? Nenhum!

Também devemos rejeitar a interpretação que ressalta os mistérios como sendo segredos conhecidos somente por Deus e por aqueles que falam em línguas. Não existem “crentes especiais” ou mais iluminados que possuem acesso a segredos particulares com Deus. Essa interpretação, além de ser gnóstica, é vigente em ramificações heréticas como o adventismo, mormonismo, o neopentecostalismo, entre outras. Deus não tem filhos preferidos; Ele revelou o Evangelho a todos os crentes. Outra interpretação que deve ser rejeitada é que o dom de línguas foi concedido para os crentes se comunicarem com Deus de forma mais espiritual, uma vez que falam mistérios.

Ora, o meio que Deus concedeu aos crentes para se comunicarem com Ele é a oração realizada na própria língua. Então, o que significa falar pelo espírito mistérios? Paulo está simplesmente dizendo que, quando um idioma desconhecido é falado no culto sem haver tradução, a mensagem divulgada é “misteriosa” ou incompreensível para os ouvintes.4

Calvino ratifica esta interpretação em seu Comentário Expositivo de 1 Coríntios, dizendo que o termo mistérios possui um sentido negativo, “como sendo certas expressões ininteligíveis, confusas, enigmáticas, como se Paulo tivesse escrito: ninguém entende uma só palavra do que ele [o que fala em línguas] diz”.5

d) O foco equivocado das línguas (vs.4a)

Prosseguindo sua argumentação, Paulo acentua que aquele que fala em línguas edificaa si mesmo. Este trecho de difícil interpretação é o favorito dos pentecostais e neopentecostais na defesa do falar em línguas em particular para a edificação individual. Essa ideia foi chamada de o dom de pijamas, referindo-se ao ato de falar em línguas em privado. Carlos Ortiz foi o criador desta expressão.

Por conta de uma interpretação errônea desse trecho, ele assegurou que, diferentemente dos outros dons, que foram conferidos para a edificação coletiva [da igreja], as línguas foram conferidas especialmente para a edificação individual do crente, como um tipo de hábito privado a ser realizado pelo crente em casa, a sós com Deus. Apesar de alguns continuacionistas afirmarem que não deve haver línguas no culto sem interpretação, através desta passagem eles apoiam o hábito de falar em línguas em particular.

Com efeito, se analisarmos meticulosamente o contexto imediato de 1 Coríntios 14, abrangendo também o capítulo 12, 13, Atos 2, e o contexto teológico das línguas, entenderemos que Paulo não está ensinando aqui uma prática das línguas como um devocional privado. O apóstolo não ensina que esse é o propósito das línguas. Sendo assim, vejamos três razões que demonstram outro entendimento:

1. Conforme já disse, quando escreveu 1 Coríntios 14, Paulo tinha em mente um culto. Ele imagina a igreja reunida para um culto de adoração a Deus quando trata da questão da profecia e das línguas. Era como se Paulo fosse visitar a igreja quando estivesse reunida para o culto público.

Desse modo, o apóstolo relata o que acontece quando os irmãos se reúnem para o culto (vs. 26), e, assim, tece as diretrizes necessárias com relação ao uso adequado dos dons no culto (vs. 27-40). Ele imagina o caso de um irmão falando em línguas e os demais irmãos ao seu redor não entendendo o conteúdo do que está sendo emitido verbalmente (vs.9,16-17).

Ele afirma enfaticamente que, ao estar presente num culto público, prefere instruir os irmãos na própria língua, em vez de falar muitas palavras em línguas humanas desconhecidas para eles (vs.19). Ainda que de forma implícita, vemos aqui a preocupação de Paulo com a edificação coletiva.

No versículo 12, o apóstolo orienta os irmãos da igreja em Corinto a progredir nos dons espirituais, tendo em vista a edificação da igreja como um todo, e não a edificação pessoal do crente. Portanto, no capítulo 14, vemos orientações acerca de como deve ser o procedimento dos crentes no exercício dos seus dons no culto público.

Por outro lado, nesta primeira carta a igreja de Coríntios, Paulo orienta os crentes a fazerem algumas coisas no âmbito privado [ou seja, em suas próprias casas], e não na igreja. Ele escreve que os crentes, antes de participarem da celebração da santa ceia, devem comer em casa (11.34). Caso houvesse dúvidas bíblicas por parte das mulheres no culto, elas deveriam buscar o esclarecimento em casa, indagando os seus próprios maridos ao invés de interromper o progresso do culto com interpelações (14.35). E, finalmente, os crentes deveriam reunir o dinheiro das contribuições para os crentes da Judéia em casa (16.2). Portanto, se os crentes não poderiam falar em línguas no culto sem haver tradução, mas pudessem fazer isso em particular, seria bem provável que Paulo escrevesse orientações claras acerca desta prática, como fez nos casos supramencionados.

Diante disso, percebemos que Paulo não escreve nenhuma orientação sobre o uso das línguas sem interpretação no âmbito privado. Neste capítulo ele está discorrendo sobre questões relacionadas ao culto, isto é, quando alguém fala em línguas sem haver a interpretação. Logo, os continuacionistas não podem utilizar este trecho para justificar o hábito de falar em línguas em particular.

2. A edificação ensinada por Paulo ocorre somente quando os crentes compreendem as questões de Deus exercidas pelos dons no culto. Sendo assim, a ideia de alguém edificar a si mesmo através do hábito de falar em particular uma língua estrangeira sem tradução foge do padrão estabelecido por Paulo. Acerca da contradição existente na auto edificação, Charles Hodge, em seu Comentário de 1 Coríntios, escreve que aquele que fala em línguas “se edifica porque entende a si mesmo”.7A interpretação de Hodge é interessante, no entanto se depara com o versículo 14, que diz que aquele que fala em línguas não entende o que está dizendo.

D. A. Carson, que apoia o hábito de falar em línguas sem tradução em privado, foge das evidentes implicações descritas no capítulo 12.7. Lá, Paulo assevera que os dons do Espírito são conferidos para o que for proveitoso, e que, no contexto, refere-se ao que for proveitoso para [ou que beneficie] a igreja. Carson reconhece isso, e afirma que, de acordo com este trecho, “não existe nenhum benefício direto [para aquele que fala em línguas sem interpretação em particular]”.8 Porém, o argumento de Carson de que as línguas faladas em secreto traz algum tipo de “benefício indireto” é tendencioso e incongruente. A prova que ele utiliza para sustentar essa afirmação é ínfima e forçada. Ele escreve:

Todavia, a Paulo foram concedidas visões e revelações extraordinárias que objetivavam somente seu beneficio imediato (2Co 12.1-10); contudo, certamente a igreja recebeu ganhos indiretos, pois essas visões e revelações, para não mencionar a questão do espinho na carne, o capacitaram mais para o seu ministério e proclamação. […] É difícil ver como o versículo 7 torna ilegítimo o uso privado do falar em línguas se o resultado é uma pessoa melhor, um cristão com mais consciência espiritual: a igreja pode sim receber benefícios indiretos.9

Não existe a comparação entre o que Paulo ensinou sobre os dons espirituais com as experiências espirituais que ele teve em particular. Também não existe nas cartas de Paulo uma proibição contra experiências espirituais particulares. Porém, o ato de falar em línguas humanas é visto como um dom que foi concedido pelo Espírito Santo a alguns para o beneficio da igreja (veja Ef 4.11-12; 1Pe 4.10-11). Portanto, o argumento de Carson, que diz que a igreja recebe um “benefício indireto” com aquele que fala em línguas em particular é frágil demais para acreditarmos, uma vez que a experiência espiritual particular não edifica a igreja numa forma coletiva, mas apenas a pessoa que a teve.

3. Por outro lado, na tentativa de manter o equilíbrio na interpretação deste trecho, Augustus Nicodemus Lopes sugere uma “posição intermediária”. Ele escreve:

Paulo está admitindo que existe algum benefício espiritual para o que fala em línguas, mas que não é a edificação que ele deseja para a igreja, apesar de usar a mesma palavra. Seria uma espécie de compensação quando não houvesse intérprete na igreja, como um consolo ao que falou mas não foi entendido. Paulo admite que o espírito de quem ora, canta e bendiz a Deus em línguas, mesmo sem compreender o que diz (a mente permanece infrutífera) recebe algum tipo de beneficio. (vs.14-17). Ele mesmo recomenda que, no caso de não haver intérprete, o que fala em línguas “fale consigo mesmo e com Deus”, como uma espécie de consolo diante da ordem para calar-se (14.28).

Isso, entretanto, não significa que o apóstolo encoraja a prática das línguas em privado O beneficio que a mesma traz, na opinião do apóstolo, é inferior à edificação recebida na comunidade, pelo ministério dos outros irmãos, pelos dons espirituais. A compensação para o que fala em línguas é somente no caso de não haver intérprete na igreja. É bastante diferente alguém querer falar línguas em privado, já sabendo de antemão que não haverá interpretação.

Como entender, então, as experiências relatadas por cristãos sinceros de que experimentaram o falar línguas a sós? Pessoalmente, creio que Deus pode fazer exceções, mas o que ele nos ensina no Novo Testamento é que as línguas, juntamente com os demais dons do Novo Testamento, foram dados para a edificação da igreja e deveriam ser exercidos durante os cultos. 

Talvez pudéssemos justificar o uso do dom de línguas em particular lembrando que dons como o de curar, socorros e milagres provavelmente eram exercidos também fora do ambiente de culto. Porém, olhando o argumento mais de perto, vemos que há uma diferença fundamental: curas, milagres e socorros, exercidos em particular, sempre são administrados por alguém a outro alguém. No fim, acaba sendo um membro da igreja edificando outro membro da igreja. O mesmo não pode ser dito no caso de falar línguas a sós.10 

O problema dessa “interpretação intermediária”, embora seja atraente, consiste no fato de não haver nenhuma informação clara nas cartas de Paulo sobre a ideia de uma edificação parcial [“compensação”, segundo pressupõe Nicodemus] quando um dom espiritual [no caso, as línguas] não é usado da forma que foi estabelecida. Basear-se nos versículos 14-17 não soluciona o problema; é apenas uma fuga mal sucedida.

Neste trecho, especialmente os versículos 16-17, Paulo, de fato, elogia aquele que louva a Deus. Ele não censura as expressões de gratidão a Deus, mas, sim, o modo em que este agradecimento é manifesto, ou seja, em línguas não interpretadas. Paulo repreende aquele que ora em línguas pela desconsideração para com o próximo, visto que a pessoa não entende o que está sendo transmitido em outra língua e, portanto, não recebe nenhum benefício espiritual. Assim, o versículo 17 é uma altissonante censura desferida ao que fala em línguas no culto sem interpretação, uma vez que privou o seu próximo da edificação.

Diante do fracasso das interpretações que tentaram sanar a dificuldade existente no versículo 4, qual seria a melhor interpretação? O que Paulo quis dizer quando escreveu que aquele que fala em línguas edifica a si mesmo? Segundo o meu entendimento, Paulo escreveu o versículo 4 em um tom de ironia. Essa é uma figura de linguagem que esboça uma censura disfarçada de aprovação. É o oposto do que se quer dizer, porém sempre ressaltando o sentido verdadeiro da afirmação. Era como se Paulo estivesse declarando uma verdade – o que fala em línguas edifica a si mesmo – no entanto, essa “aparente verdade” é uma ironia. Nesta mesma carta Paulo escreve outra verdade em tom de ironia (veja 1Co 4.6-8).  Existem formas de ironia nas Escrituras que são praticamente sarcasmos (veja 1Sm 26.15; 1Rs 18.27). Portanto, a melhor interpretação para o versículo 4 seria entendermos a declaração de Paulo como uma ironia ao coríntios. Eles estavam abusando do uso do dom de línguas para exibirem uma “espiritualidade superior” aos demais; na verdade não passava de uma falsa espiritualidade egoísta e equivocada (3.1-4). Os dons espirituais eram um símbolo de status para os imaturos coríntios!

Interpretando o versículo 4, John Stott ratifica que “certamente deve existir pelo menos uma ponta de ironia no que Paulo escreve, porque a frase praticamente se contradiz em seus termos. A auto edificação está completamente fora de cogitação quando o Novo Testamento fala de edificação.11

Não obstante, para fortalecer sua argumentação sobre a necessidade do entendimento das línguas faladas para que a igreja seja edificada, Paulo utiliza como exemplo três ilustrações. Ele fala sobre os instrumentos musicais (vs.7), uma trombeta tocada que alerta sobre a preparação para uma batalha (vs.8), e as conversas interpessoais (vs.9-11).

O versículo 6 é uma introdução para as ilustrações subsequentes. Paulo pergunta aos coríntios qual seria o benefício que obteriam se ele fosse visita-los e ministrasse na igreja deles num idioma desconhecido. A resposta é: nenhum benefício! Haveria, sim, benefício se o apóstolo ministrasse na própria língua, quer fosse como profeta [revelação e profecia] ou como mestre [ciência e doutrina]. O tema desta seção poderia ser resumido numa só frase: A manifestação dos dons espirituais no culto deve ser inteligível para que haja a edificação de todos! Por mais que as línguas sejam espirituais, se não forem interpretadas, irão produzir o mesmo som confuso que os instrumentos musicais soam quando são tocados por leigos. É o mesmo que dizer de alguém que não sabe o toque de preparação de uma trombeta para a guerra, e como se houvesse uma conversa entre dois estrangeiros que não entendem o idioma um do outro. Vejamos, pois:

i. Os instrumentos musicais (vs.7)

Se uma pessoa que é leiga na música decide tocar uma flauta ou uma harpa, o som que emitirá desses instrumentos será indefinido e confuso.

ii. A trombeta (vs.8)

De modo semelhante à questão da música, se uma pessoa produzir um sonido indefinido com a trombeta, visto que desconhece o sonido que deve ser tocado, como um exército se preparará para a batalha? Haverá confusão ao invés de preparação.

iii. As conversas interpessoais (vs.9-11)

Imagine você, um brasileiro, conversando com um alemão. Ambos desconhecem a língua um do outro. Portanto, a conversa será vã, pois não houve a compreensão da mesma.

Através destas ilustrações, Paulo ensina que se alguém falar em outra língua sem interpretação no culto, a igreja não poderá ser edificada, visto que o idioma falado é incompreensível para as outras pessoas (vs.11). Para que ocorra a edificação deve haver o entendimento.

 

O dom de línguas (2/4)

O dom de línguas (3/4)

O dom de línguas (4/4)

 

NOTAS:

  1. A expressão não fala a homens, senão a Deus, é comumente usada por alguns estudiosos para confirmar que as línguas que Paulo salienta em 1 Coríntios 14 não são idiomas humanos. Porém, a expressão somente demonstra que as línguas são “uma forma de oração” (veja 14.14-15). Em Atos 2.11; 10.46, as línguas, aparentemente, eram uma forma de oração e louvor a Deus distintos da profecia (veja também Atos 19.6).
  2. Alguns estudiosos deduzem pela expressão outras línguas, que ocorre algumas vezes em 1 Coríntios 14, como um sinal de que Paulo está se referindo a uma língua espiritual diferente das línguas humanas. No entanto, a palavra outras não aparece no grego, e trata-se de um acréscimo de interpretação dos tradutores para o português.
  3. Charles Hodge, em seu Comentário Bíblico de 1 Coríntios, defende que Paulo se refere no versículo 2 ao Espírito Santo, e não ao espírito humano. Ele ressalta que “as Escrituras não fazem distinção entre o “nous” (mente) e o “pneuma” (espírito) como faculdades diferentes da inteligência humana”. Porém, o apóstolo traça esse contraste nos versículos 14 e 15.
  4. Augustus Nicodemus Lopes corrobora que, quando o Senhor apareceu a Paulo no caminho de Damasco, falou-lhe em língua hebraica (At 26.14). Seus companheiros, possivelmente soldados romanos cedidos por Pilatos aos principais sacerdotes para prender os cristãos, viram a luz, ouviram a voz, mas não a entenderam (“ouviram”, veja At 22.9), visto que não falavam hebraico. A voz soou como um perfeito mistério para eles. Talvez devamos interpretar 1 Coríntios 14.2 nesse sentido (O culto espiritual, pág 195).
  5. Calvino. 1 Coríntios, pág 414.
  6. A palavra edificar significa literalmente “construir”; traz a ideia de se construir cidades, casas ou sinagogas. É aplicada figuradamente à igreja como um todo (veja Mt 16.18; Rm 14.19; 15.2; 1Co 3.9; Ef 2.20-21; 1Ts 5.11; 1Pe 2.5). Desse modo, edificar passou a ser usada no sentido coletivo de “fortalecer uns aos outros”; “fazer com que os outros cresçam em maturidade espiritual”. Estas bênçãos espirituais só acontecem quando os dons são ministrados aos outros como igreja.
  7. Charles Hodge. 1-2 Corínthians, pág 281.
  8. D. A. Carson. A manifestação do Espírito. A contemporaniedade dos dons à luz de 1 Coríntios 12-14, pág 37.
  9. Ibid.
  10. Augustus Nicodemus Lopes. O culto espiritual, pág 198-199.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

Reformados 21
Reformados 21
Site de Teologia e Apologética, cujo intuito é evangelizar, discipular, ensinar, combater as heresias e defender a fé cristã.