Apóstolo era um dom espiritual? (2/2)

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Efésios 4.11

Passemos agora a analisar a segunda passagem onde “apóstolos” figuram ao lado de outros ministérios ou dons espirituais.

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo (Ef 4.11-12).

Clark corretamente avalia que “estes versículos são cruciais para o entendimento restauracionista da necessidade da continuação do ministério apostólico”.33

Pessoas com dons

Indaguemos, inicialmente, se esta lista é de dons espirituais, os quais estariam disponíveis para a igreja cristã em todos os tempos de sua existência aqui neste mundo. Notemos, de saída, a maneira como Paulo descreve os componentes da mesma. Embora ele se refira nos versos 7 e 8 aos dons espirituais que foram dados por Cristo à sua igreja (cf. “a graça foi concedida…, v.7; “concedeu dons…, v.8), a lista do verso 11 não é apresentada de forma abstrata, como “dons de curar, dom de profetizar, dons de discernimento e ciência,” a exemplo de outras listas (cf. 1Co 12.4-11; 28-29; Rm 12.6-8). Paulo diz que Cristo concedeu pessoas que são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Ele concedeu “uns” e “outros”. Estas pessoas, sem dúvida, foram capacitadas com dons espirituais para exercer estes determinados e diferentes ministérios ou ofícios na igreja.34 Segundo Snodgrass, “a ideia aqui não é de dons dados a um grupo especial, mas da graça dando pessoas a igreja”.35

A liderança na igreja apostólica

Outra constatação é a complexidade das funções descritas nesta lista. E praticamente impossível reavermos com exatidão o funcionamento prático do sistema de governo ou liderança que era exercido nas igrejas cristãs no período apostólico. O Novo Testamento menciona apóstolos, presbíteros, bispos, evangelistas, diáconos e diversas outras categorias, além do dom de presidir e governar. Nem sempre é possível termos uma descrição acurada do trabalho exercido por estas pessoas. Pastores podiam ser mestres e alguns profetas eram mestres também. Apóstolos, como Paulo, eram profetas e mestres. Presbíteros governavam igrejas locais e também pregavam. Diáconos, como Felipe e Estevão, foram eleitos para cuidar da obra social das igrejas, mas eram pregadores e evangelistas.

O que transparece com mais clareza é que todos eles exerciam suas funções mediante a pregação da Palavra e que as diferenças estavam na área de inspiração, autoridade que exerciam nas igrejas, reconhecimento como uma classe ou ofício e mobilidade. Aqueles que eram reconhecidamente inspirados por Deus eram os apóstolos. Eles também eram recebidos com maior autoridade. Já mobilidade é um enigma. Os doze parecem ter estacionado por um tempo em Jerusalém, mas depois se mobilizaram pelo Império, pregando o Evangelho em todo lugar, como podemos inferir discretamente de Atos e segundo nos conta a tradição cristã. Já Paulo era um itinerante, sem sede definida por mais do que dois ou três anos num mesmo lugar. Os profetas eram receptores de revelações ocasionais e, por vezes, eram capazes de profecia preditiva.36 Havia profetas itinerantes, como Silas e Ágabo, mas havia profetas estacionados em suas igrejas, como aqueles de Corinto. O Didaquê, que data do século 2, menciona apóstolos e profetas itinerantes. Os evangelistas não parecem ter sido canais de revelação e nem sabemos que autoridade eles teriam nas igrejas. Como o nome indica, eles eram pregadores das boas novas. Eles seriam, à primeira vista, os que tinham mais mobilidade. Mas, Felipe, o único chamado com este título no Novo Testamento, apesar de suas viagens para Samaria, tinha uma casa em Cesaréia, e Timóteo, a quem Paulo exorta a que faça a obra de um evangelista, estava fixo na cidade de Efeso. Os únicos que aparentemente eram sitos em comunidades locais eram os pastores destas igrejas, que também são chamados de mestres. Eles não eram portadores de revelação, mas sua instrução era para ser recebida como autoritativa enquanto estivesse em harmonia com o ensino apostólico.

Diante deste quadro, pintado de maneira simples acima, precisamos reconhecer que é praticamente impossível agrupar numa mesma categoria todos que são mencionados por Paulo nesta lista de Efésios 4.11. Nem todos são inspirados, eles não têm a mesma autoridade, alguns eram itinerantes e outros não, uns representam ofícios e outros apenas dons.

É natural, portanto, que existam diversas interpretações deste versículo, todas defendidas por hábeis expositores, quanto à natureza dos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres mencionados por Paulo. Pessoalmente, entendo que ela é uma relação, não exaustiva, de diferentes ministérios que foram levantados por Deus para que a igreja de Cristo, como corpo, viesse a existir, se edificar e se expandir no mundo, como o contexto da passagem indica.

A temporariedade de funções

Infere-se, portanto, que nem todos esses ministérios de Efésios 4.11 são necessários em todas as épocas da igreja. Apóstolos, como Paulo, foram receptores da revelação de Deus e instrumentos dele para estabelecer a verdade central do Evangelho sobre a pessoa de Cristo e para escrever esta verdade – ele e pessoas associadas a ele. Paulo e os doze tiveram um papel fundacional no início da igreja cristã. Seu ofício se tornou exclusivo à medida que seus ensinos se tornaram Escritura. Podemos falar de apóstolos hoje somente no sentido secundário e como analogia: os modernos missionários cristãos são semelhantes a pessoas como Barnabé, Epafrodito, Silas e Timóteo, que eram enviados de igrejas para anunciar o Evangelho, e por isto eram chamados de apóstolos, enviados. Assim, da mesma forma, podemos falar de profetas hoje, mas somente no sentido de expositores e pregadores da palavra de Deus, não mais como canais de revelações e expositores dos mistérios de Deus.

Aqui, em Efésios 4.11, portanto, Paulo não está preocupado em dar uma lista que seja somente de oficiais da igreja, ou somente de dons, ou somente de ministérios, ou somente daqueles que exercem autoridade na igreja. A lista é daqueles diferentes ministérios que Deus usa para abençoar o seu povo. Se removermos de nosso caminho o desejo de achar uma explicação que encaixe todos mencionados nesta lista numa única categoria, estaremos livres para entender melhor o que cada um deles representa. E, para isto, o contexto não será somente a lista, mas a carta aos Efésios e todo o Novo Testamento. E, ao fazermos isto, verificaremos que Paulo pode colocar os apóstolos numa mesma lista em que constam pastores e mestres sem que isto nos leve à conclusão que ser apóstolo era um dom, como os pastores e mestres, ou que pastores e mestres são ofícios como o de apóstolo. Paulo poderia perfeitamente colocar na mesma lista ministérios que foram temporários, como apóstolos e profetas, e ministérios que são permanentes, como evangelistas, pastores e mestres.

Parece-nos que o motivo pelo qual alguns se sentem obrigados a defender que apóstolos aqui deve ser um dom, é a presença nesta mesma lista de funções que são reconhecidamente um dom, como profetas e mestres (cf. “dom de profetizar,” 1Co 13.2; Rm 12.6-7). Mas, conforme já mencionamos, não nos parece que “dom espiritual” é o critério orientador pelo qual Paulo selecionou os componentes desta lista, e sim a contribuição destes diferentes ministérios para a edificação do corpo de Cristo.

Quem são os “apóstolos” desta lista?

Uma vez libertos da tentação de classificarmos todos os componentes desta lista numa única categoria (dons, ofícios, ministérios, etc.), podemos agora focar no termo “apóstolos” e decidir a quem Paulo se refere simplesmente examinando como ele usa o termo nesta carta. Este uso está em perfeita harmonia com o uso que ele faz em 1 Coríntios e nas demais cartas, ou seja, “apóstolos” é, nesta carta, uma referência aos doze apóstolos de Jesus Cristo, dentre os quais Paulo se incluía.37A palavra “apóstolo” aparece 4 vezes nesta carta. Uma delas é uma referência de Paulo a si mesmo, quando se apresenta, Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus (Ef 1.1). Outras duas são referências claras aos doze, com a possível inclusão de si próprio. Em Efésios 2.20, Paulo diz que a igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2.20). John Stott, mesmo dando uma dimensão mais ampla ao sentido do termo nesta passagem, ainda assim o restringe consideravelmente:

A palavra apóstolos aqui não pode ser um termo genérico para missionários ou plantadores de igrejas ou bispos ou outros líderes de igrejas; na verdade, ela deve denotar aquele grupo pequeno e especial que Jesus escolheu, chamou e autorizou a ensinar em seu nome, e que foram testemunhas oculares da sua ressurreição, consistindo dos doze e de Paulo, Tiago e talvez um outro mais.38

Paulo diz ainda que aos “santos apóstolos e profetas” foi revelado o mistério da inclusão dos gentios na igreja (Ef 3.5). Notemos que ele qualifica os apóstolos como “santos”, um adjetivo que Paulo dificilmente usaria a não ser para os doze, que, a esta altura, já eram reconhecidos como um grupo distinto e restrito, ao qual Paulo insiste em pertencer.39 Os únicos apóstolos mencionados no Novo Testamento que se qualificam como receptores da revelação de Deus e estabelecedores do fundamento da igreja são os doze apóstolos de Jesus Cristo e Paulo. Portanto, ao dizer que Deus concedeu “apóstolos” à sua igreja para sua edificação, Paulo tinha em mente este grupo restrito, que portava o oficio temporário de apóstolo.40

Uma objeção que pode ser levantada é que Paulo menciona explicitamente os dons no contexto imediato da passagem: “A graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo” (Ef 4.7). Graça não se refere à graça salvadora, mas aos dons que Cristo concedeu a cada um dos crentes.41 Em seguida, Paulo diz que Cristo, ao subir aos céus na ressurreição, “concedeu dons aos homens” (Ef 4.8). Estes dons são enumerados em seguida numa lista, a qual é prefaciada pelo mesmo verbo “conceder”, do verso 8, ele mesmo concedeu (Ef 4.11). E o termo apóstolos ocorre logo no início dela. A isto pode ser argumentado que, embora Paulo esteja se referindo aos dons espirituais nos versos 7 e 8, contudo, no verso 11 ele menciona os que receberam estes dons, descrevendo o oficio ou ministério que eles exercem.42 Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres são a dádiva do Cristo vencedor ao seu povo.

Em outras palavras, os únicos apóstolos que serviam como fundamento da igreja – seus ensinos e seus escritos – e a quem Deus deu revelações diretas relacionadas com o surgimento da igreja e seu andamento, e que poderiam, assim, figurar como primeiros nas listas de ofícios e ministérios da igreja, são os doze e Paulo. Este ofício, evidentemente, cessou com a morte deles. Não existem mais apóstolos neste sentido. De acordo com Rengstorf, “os apóstolos são oficiais de Cristo, pelos quais a igreja é edificada. Neste sentido, eles podem ser comparados com os profetas do Antigo Testamento (Ef 2.20; 3.5), cujo ofício, com base em sua comissão, era preparar o caminho para aquele que haveria de vir”.43

Outra objeção é que aqueles que são chamados de apóstolos no Novo Testamento, mas que não pertencem ao circulo restrito dos doze e de Paulo, como Bamabé, Epafrodito, Andrônico e Júnias, tinham o dom de apostolado, que consistia no estabelecimento de igrejas em áreas ainda não alcançadas. Estes “apóstolos” num sentido mais amplo, poderíam estar sendo mencionados por Paulo nesta lista de ministérios. Hoehner, que defende esta posição, acredita que é neste sentido que Paulo usa o termo “apóstolos” aqui.44 Todavia, se o ministério de apóstolo é este, qual a diferença do evangelista, que aparece logo em seguida na listai Ao descrever o evangelista, Hoehner, na verdade, dá a mesma descrição do que ele acredita que era o dom de apóstolo:“a função deles se assemelha ao do missionário moderno”.45 

Quando os “apóstolos” foram dados à Igreja?

Alguns estudiosos argumentam que, de acordo com esta passagem, Cristo concedeu apóstolos depois de ter subido aos céus, na sua ascensão, e, portanto, depois de Pentecostes (Ef 4.10). Assim, “apóstolos” aqui não pode incluir os doze, uma vez que eles foram estabelecidos como apóstolos antes de Pentecostes. Desta forma, os doze são apóstolos pré Pentecostes e Paulo e os demais, pós Pentecostes.46Jones, todavia, faz uma cuidadosa exegese do contexto e demonstra que a expressão subiu acima de todos os céus (Ef 4.10) é uma referência à exaltação de Cristo, que começa com a ressurreição. É o Cristo ressurreto quem concedeu apóstolos ao seu povo, o que inclui os doze juntamente com Paulo.47

 

Conclusão

À luz destas considerações, parece ficar claro que os apóstolos mencionados nas listas de 1 Coríntios 12.28 e Efésios 4.11 são aqueles a quem Deus, primeiramente, encarregou de receber e transmitir a sua revelação e estabelecê-la na igreja em geral, a saber, os doze e Paulo. E neste sentido que eles vêm “primeiro”.

Ao longo da história da igreja, houve aqueles que foram enviados para a obra do Senhor a lugares onde Cristo ainda não havia sido anunciado, com a missão de abrir novas igrejas e pregar o Evangelho de Cristo. Alguns destes pioneiros, a maior parte dos quais sofreu e morreu por Cristo, foram chamados, geralmente depois da morte deles, de apóstolos às nações onde foram levar o Cristianismo. Contudo, esta designação foi eventual, pois o título de apóstolo é historicamente uma designação dos doze e de Paulo, como um reconhecimento do seu trabalho fundacional. O seu uso costumeiro para designar obreiros e missionários certamente poderia causar muita confusão.

O que o moderno movimento de restauração apostólica deseja é mais do que o reconhecimento de que havia o dom de apóstolo e que o mesmo continua na igreja em nossos dias. Pois, o que se vê não é um anelo pela função de apóstolos, mas sim o título e o poder a ele associados por causa dos doze e de Paulo.

 

Apóstolo era um dom espiritual? (1/2)

 

NOTAS:

  1. Clark, “Apostleship,” 366. Por “Restauracionista” ele se refere ao moderno movimento que busca restaurar o ministério apostólico nas igrejas hoje.
  2. Cf. Harold W. Hoehner, Ephesians em ed. Phillip W. Confort, Cornerstone Biblical Commentary (Carol Stream, IL: Tyndale House Publishers, 2008), 82; Snodgrass, Ephesians, 137.
  3. Snodgrass, Ephesians, 203.
  4. As revelações que eram dadas aos profetas das igrejas locais não eram as mesmas revelações dadas aos apóstolos, mas percepções quanto à aplicação da palavra de Deus às circunstâncias, de forma que profetizar é descrito por Paulo como se fosse pregação (cf. ICo 14.3, 24-25, 30). Os profetas que são associados aos apóstolos na recepção de revelações fundacionais são provavelmente os profetas do Antigo Testamento, embora haja controvérsia sobre este ponto (Ef. 2.20; 3.5).
  5. John R. W. Stott, The Message of Ephesians em The Bible Speaks Today (Downers Grove: Intervarsity, 1991), 160; Snodgrass, Ephesians, 203 (embora timidamente).
  6. Stott, Ephesians, 107. C£ também Ernest Best, Essays on Ephesians (Edinburgh: T 8C T Clark, 1997), p. 158.
  7. Cf. Best, Ephesians, 158. Abraham Kuyper nota que eles sáo chamados de “santos”, não porque haviam obtido a perfeição, mas porque haviam sido separados para o serviço de Deus, como o templo e sua mobília (The Work of the Holy Spirit, 139-140). Clark comenta que, ao usar “santos” Paulo está expressando a compreensão de que tanto ele quanto os principais representantes dos apóstolos e profetas, foram favorecidos com um papel especial na igreja, o que sugere que este papel não era para ser continuado (“Apostleship,” 367).
  8. A maneira como Paulo descreve seu apostolado nesta carta (Ef 3.7-9), deixa claro que ele via pelo menos o seu apostolado como um oficio. Ele foi “constituído ministro” por Deus para pregar aos gentios (Ef 3.7; cf. “sagrado encargo”, Rm 15.16), linguagem que lembra a instalação de presbíteros: “Vos constituiu bispos” (At 20.29); “constituísses presbíteros” (Tt 1.5).
  9. Cf. Charles H. Talbert, Ephesians and Colossians (Grand Rapids: Baker, 2007), 109.
  10. Cf. Hoehner, Ephesians, 87. Esta mistura de pessoas e dons, conforme já vimos, acontece na lista de 1Co 12.28 e Rm 12.4-8.
  11. Rengstorf. Cf. John Calvin and William Pringle, Commentaries on the Epistles of Paul to the Galatians and Ephesians (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2010) in loco; Snodgrass, Ephesians, 202, n.31, embora ele prefira “ordem institucional” pois acha que “ofício” é forte demais para descrever estes ministérios. Para uma opinião contrária, veja Talbert, Ephesians and Colossians, 112; Francis Foulkes, 7he Epistle of Paul to the Ephesians em Tyndale New Testament Commentaries Grand Rapids: Eerdmans, s/d, 119.
  12. Hoehner, Ephesians, 87.
  13. Ibid., 88.
  14. Cf. Jones, “Are There Apostles Today”, que cita A. Wallis como defensor deste ponto.
  15. Ibid., 114-116.

 

 

Autor: Augustus Nicodemus Lopes

Trecho extraído do livro Apóstolos: verdade bíblica sobre o apostolado, pág 134-142.

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