Apóstolo era um dom espiritual? (1/2)

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Precisamos agora tratar de mais duas passagens nas cartas de Paulo, que são usadas como base para a existência de apóstolos em nossos dias: 1 Coríntios 12.28 e Efésios 4.11.1 Nelas, “apóstolos” figuram em listas onde aparecem dons espirituais e ministérios.

A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas (1Co 12.28).

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres (Ef 4.11).

A interpretação destas passagens pelos defensores do apostolado moderno é que ser apóstolo era um dom espiritual ligado a um ministério – o mais importante de todos – visto que estas listas são de dons e ministérios que Deus concedeu às igrejas para sua edificação. Assim, o apostolado deveria ter permanecido ativo na igreja de Cristo através dos séculos, bem como os demais dons mencionados nestas listas.

Quando confrontados com o fato de que não surgiram apóstolos como os doze e Paulo no cristianismo histórico após a morte deles no século 1, os defensores do apostolado moderno argumentam que isto se deveu à falta de abertura espiritual para sua manifestação, causada pela corrupção e pela institucionalização da igreja depois do período apostólico. Segundo eles, a Reforma protestante não foi profunda o suficiente no retorno às Escrituras e deveria ter restaurado a validade e exercício dos dons espirituais e de todos os ministérios mencionados no Novo Testamento — inclusive o de apóstolo – nas igrejas cristãs. O atual movimento de reforma apostólica reivindica que isto está sendo feito agora, e que o movimento de reforma apostólica é a continuação da Reforma protestante, levando-a a sua plenitude pela restauração do apostolado na igreja de Cristo.

Este raciocínio se baseia numa interpretação equivocada de “apóstolos” nestas duas listas. Acredito que em nenhuma das duas listas, o termo “apóstolos” se refira a um dom espiritual, como o de ensino ou de profetizar, mas a um ofício, exercido por um número limitado de pessoas levantadas por Deus na igreja em seus primórdios para estabelecer de maneira definitiva o fundamento da igreja de Cristo aqui neste mundo. E, este ministério ou ofício, devido à sua natureza fundacional, era temporário e cessou quando os escritos apostólicos foram reconhecidos e aceitos pelas igrejas cristãs, formando o que conhecemos como o Novo Testamento.

O conceito de apostolado como um ofício exclusivo dos doze e de Paulo na igreja cristã nascente encontra oposição da parte de estudiosos liberais do Novo Testamento. Para eles, a igreja primitiva era inicialmente baseada nos carismas (dons) espirituais. A liderança era exercida por pessoas que tinham dons espirituais de apostolado, profecia, ensino, liderança, etc. À medida que o tempo passou, de acordo com o pensamento liberal, os dons espirituais foram sendo gradativamente substituídos pelos ofícios, enquanto a igreja se tornava mais e mais institucionalizada, naquilo que ficou conhecido como Ur Katholicismus, “catolicismo primitivo”, resultando numa ordem hierárquica complexa, fixa e semelhante à militar. Portanto, os documentos do Novo Testamento que falam de ofícios ou de uma ordem hierárquica ou institucional de apóstolos, bispos, presbíteros e diáconos, não podem ter sido escritos no século 1, mas somente em meados do século 2 em diante, em defesa destes ofícios. Assim, Atos, Efésios e as Pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito) são consideradas como obras tardias do século 2 e no caso das cartas de Paulo, são obras pseudepígrafas elaboradas por alguém se passando por ele.2

Um exemplo dessa linha de pensamento se vê no liberal alemão E. Kãsemann, que diz perceber no livro de Atos este catolicismo incipiente que mais tarde desabrochou no catolicismo pleno, com seus dogmas e hierarquia elaborados. Entre estas tendências “católicas”, Kãsemann inclui a sucessão apostólica e transmissão de autoridade. Todavia, simplesmente não existe nada disso em Atos e a tese de Kãseman tem sido, em geral, rejeitada.3 A argumentação proveniente do liberalismo alemão já foi respondida adequadamente por estudiosos conservadores, que demonstram a falta de qualquer base convincente para a rejeição da autenticidade de Efésios, por exemplo, com base nesta distinção entre carisma e ofício.4

Outra frente de oposição ao conceito de ofício no período apostólico vem de alguns grupos dentro do campo pentecostal, com sua ênfase nos dons espirituais e no desejo de tê-los todos funcionando em nossos dias – inclusive o dom de apóstolo. Se for admitido que o apostolado seja um ofício ligado aos doze e a Paulo, não se pode reivindicar a existência hoje de apóstolos com a mesma autoridade deles. A questão é, portanto, se podemos provar biblicamente que o apostolado, em algum sentido, era um dom espiritual ou um ministério permanente da igreja de Cristo.

1 Coríntios 12.28

Iniciemos nosso exame do assunto com a análise de 1 Coríntios 12.28:

A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas (1Co 12.28).

A leitura comum desta passagem é que Paulo usa “apóstolos” nesta lista como um dom espiritual, à semelhança dos demais dons mencionados nela. Contudo, creio que aqui, “apóstolos” é a designação de uma determinada classe de pessoas, juntamente com profetas e mestres, que foram instituídas por Deus em sua igreja para o estabelecimento dela e sua consequente edificação. E a classe “apóstolos” tinha uma natureza temporária. Diversos argumentos podem ser usados para demonstrar este ponto.

O sentido geral de “apóstolo” no Novo Testamento

O termo απόστολος, conforme já vimos até aqui, é empregado no Novo Testamento de duas maneiras básicas. A mais frequente é como uma designação do ofício dos doze e de Paulo. Neste uso, “apóstolo” funciona como um título, como “os doze apóstolos” ou “o apóstolo Paulo.” Vimos já as qualificações necessárias, bem como as evidências para o oficio de apóstolo. E como somente os doze e Paulo se enquadram nestes requerimentos.5 Como oficio, o termo “apóstolo” pertence a eles somente. Não se pode falar, aqui, que eles foram colocados nesta posição porque tinham o “dom” de apóstolo.

O outro uso do termo απόστολος é para designar uma função desempenhada por alguém que foi escolhido e enviado por uma igreja ou igrejas para uma obra. Conforme vimos no capítulo anterior, podemos incluir nesta categoria os irmãos que eram “apóstolos das igrejas” (2Co 8.23), Epafrodito, que era “apóstolo” dos filipenses para auxiliar nas necessidades financeiras de Paulo (Fp 2.25), Barnabé (At 14.4,14) e outros obreiros referidos como “os demais apóstolos” por Paulo em 1Coríntios 9.5.

Assim, “apóstolo” no Novo Testamento não é a designação de um dom espiritual. O termo designa o oficio de apóstolo (os doze e Paulo) e pessoas que foram enviadas com uma missão, Esta missão tanto podia ser pregar o Evangelho (Paulo e Barnabé, At 14.4,14; Silas e Timóteo, 1Ts 2.17;“os demais apóstolos”, 1Co 9.5; talvez Andrônico e Júnias, Rm 16.7) ou entregar uma oferta em dinheiro (os irmãos, 2Co 8.23; Epafrodito, Fp 2.25). Isto não quer dizer que os doze, Paulo e os demais chamados de apóstolos não tivessem dons espirituais ou que não precisavam deles. Usando apenas Paulo como exemplo, encontramos em sua pessoa dons como mestre e profeta (At 13.1; 2Tm 1.11), línguas (1Co 14.18), sinais e prodígios (2Co 12.12), para mencionar alguns. Ou seja, apóstolos como Silas e Timóteo, enviados para pregar o Evangelho, provavelmente teriam dons de evangelista, mestre, pastor, governos, e outros relacionados com esta função.6 O que quero dizer é que, enquanto “profetas” e “mestres” designam uma classe reconhecida de pessoas (veja At 13.1-2) e os dons espirituais correspondentes (veja 1Co 14.2; Rm 12.6-7), não há um dom que corresponda ao ofício de apóstolo nesta mesma proporção.

A divisão da lista entre pessoas e dons

Percebe-se, num exame mais cuidadoso, que Paulo parece dividir a lista de 1Coríntios 12.28 em duas partes. Na primeira, marcada pela sequência “primeiramente… segundo… terceiro,” ele enumera os apóstolos, profetas e mestres, pessoas que foram estabelecidas por Deus na igreja como seus ministros.7 Eles estão numa posição de maior importância em relação ao que vem na segunda parte da lista. Esta é composta de cinco dons ou atividades, colocadas de maneira genérica: milagres, curas, socorros, governos e variedades de línguas. “Operadores de milagres” que vem em seguida a mestres, é a tradução de δυνάμεις, “milagres” – a palavra “operadores” não ocorre no grego. Depois de “milagres” é que aparece a palavra “dons” χαρίσματα se referindo a curar. Ou seja, Paulo menciona no início da lista pessoas que foram estabelecidas na igreja por Deus e, depois, passa a citar de maneira abstrata os dons espirituais.8

Esta divisão da lista entre pessoas e dons também aparece claramente no versículo seguinte: “Porventura, são todos apóstolos? Ou, todos profetas? São todos mestres? Ou, operadores de milagres? Têm todos dons de curar? Falam todos em outras línguas? Interpretam-nas todos?” (1Co 12.29). É evidente a distinção entre ser apóstolos, profeta ou mestre e ter dons de curar e falar em línguas. Portanto, estando no topo da primeira parte da lista, “apóstolos” não pode ser considerado como um dom similar aos que vêm na segunda parte.

E interessante ainda observar que na lista de Romanos 12.6-8 Paulo segue uma ordem inversa: ele inicia com dons (profecia e ministério) e termina com pessoas (o que ensina, o que exorta, o que contribui, etc.), o que mostra que ali ele estava interessado primeiramente em tratar dos dons, enquanto que em Corinto ele deseja estabelecer a supremacia dos ofícios ocupados por pessoas dotadas, supremacia essa sobre os dons como o de fazer milagres, curar e especialmente falar em línguas.9

As razões para a divisão da lista

Há vários motivos prováveis pelos quais Paulo faz esta distinção na lista entre pessoas dotadas por Deus (apóstolos, profetas e mestres) e dons espirituais (milagres, curar, socorros, governos e línguas), Ele certamente desejava corrigir a supervalorização do dom de línguas que acontecia na igreja de Corinto.10 Esta é a razão principal pela qual ele apresentou a lista em sequência, “primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres” agrupando em seguida os dons espirituais sem ordem aparente, mas deixando as línguas por último (1Co 12.28). Barrett corretamente observa que o objetivo de Paulo era destacar a importância para a Igreja desses três ofícios da palavra, pelos quais ela é implantada e edificada. Ele poderia ter enumerado por ordem os demais dons também, mas julgou não ser necessário, apenas colocando línguas e interpretação em último lugar. Apóstolos, profetas e mestres são ministérios da Palavra e, portanto, “o ministério cristão primordial”.11 Eles figuram aqui em “ordem de eminência”,12 pois, como ministérios da Palavra, são de importância vital para a existência e manutenção das igrejas. Os dons mencionados na segunda parte da lista ocupam posição secundária quanto a isto, especialmente o dom de línguas, o menos útil de todos para a edificação da igreja, conforme Paulo argumenta no capitulo 14 desta carta.

Outra razão pela qual Paulo se refere aos apóstolos, profetas e mestres como pessoas que vêm primeiro numa lista de importância para a edificação da igreja é a oposição que ele sofria da parte de, pelo menos, um grupo da igreja de Corinto quanto ao seu apostolado. Ao colocar os apóstolos no topo de uma lista daqueles que foram estabelecidos por Deus na igreja para a sua edificação, Paulo estava lembrando aos coríntios que os apóstolos eram o ofício mais elevado na igreja de Cristo por causa de sua utilidade e propósito. Talvez, ao ter se referido à cabeça como membro do corpo (1Co 12.21) Paulo já tinha em mente o apostolado.13

Ofícios

Alguns estudiosos percebem a importância desta distinção entre pessoas e dons e identificam os três primeiros da lista como sendo ofícios.14 John MacArthur aponta para o uso do verbo τίθημι, “estabelecer” na passagem, o qual é usado com frequência para indicar uma designação oficial de alguém para um ofício. Jesus “designou” os seus doze discípulos (Jo 15.16). Deus “constituiu” os presbíteros como bispos (supervisores) do rebanho de Deus (At 20.28) e o próprio Paulo foi “designado” pregador, apóstolo e mestre (2Tm 1.11). Da mesma forma, Deus “estabeleceu” soberanamente em sua igreja apóstolos, profetas e mestres. MacArthur acredita que os dois ofícios de apóstolo e profetas foram temporários e cessaram quando o Novo Testamento foi completado.15 Calvino tem uma posição semelhante, embora para ele somente o ofício de apóstolo era temporário e que os outros dois, profetas e mestres, são permanentes.16

De acordo com Robertson e Plummer, esta lista indica que “os apóstolos eram a ordem primeira da igreja”. Eles eram análogos aos profetas do Antigo Testamento, enviados ao novo Israel como os profetas foram enviados ao antigo. Como tal, pertenciam à igreja toda e não a congregações locais.17 E como tal, o ofício de apóstolo cessou como também o dos profetas do Antigo Testamento.

Quem são os “apóstolos” desta lista

À luz destes argumentos, a explicação que nos parece mais plausível para o significado de “apóstolos” nesta lista é que Paulo tem em mente os doze e a si mesmo.18 Esta posição, contudo, não é consenso.

Diversos exegetas entendem que o termo se aplica, além dos doze e Paulo, a Tiago, Barnabé, Silas e mesmo evangelistas ou missionários como Timóteo e Tito.19 O argumento usado por quase todos que defendem esta posição é que Paulo usa o termo apóstolo” num sentido muito mais amplo do que os doze e ele mesmo. Na frase clássica de Robertson e Plummer, “não poderia ter havido falsos apóstolos (2Co 11.13), a menos que o número de Apóstolos [sic] fosse indefinido”.20 Contudo, não estamos negando que o termo é usado de maneira ampla por Paulo, como já analisamos detalhadamente desde o início de nosso estudo. O que vimos também foi que os contextos geralmente indicam quem Paulo tem mente quando usa o termo “apóstolo”. O fato de que ele chama várias pessoas diferentes de apóstolos não quer dizer que ele está usando a palavra sempre no mesmo sentido. Carson corretamente afirma que “as tentativas de estabelecer o que o apostolado significava para Paulo simplesmente apelando para o alcance semântico pleno da palavra, como ela aparece em seus escritos, é um procedimento profundamente errado no nível metodológico”.21 Além do que, seria absurdo pensar que evangelistas e missionários figurariam acima de profetas e mestres na igreja apostólica. Os argumentos que se seguem me parecem suficientes para estabelecer a posição de que, aqui, “apóstolos” é a designação dos doze e de Paulo.

Em quase todas as ocorrências do termo απόστολος, nesta carta, a referência é ao próprio Paulo, como apóstolo de Jesus Cristo (1Co 1.1; 9.1- 2; 15,9) e aos doze (1Co 4.9; 15.7), conforme já demonstramos acima.22 A única exceção parece ser “os demais apóstolos” (1Co 9.5), uma referência aos enviados das igrejas para a pregação do Evangelho. Portanto, ao dizer que Deus estabeleceu na igreja primeiramente os apóstolos, Paulo não pode ter em mente outra categoria que não aquela dos doze e ele mesmo.23

Eles foram estabelecidos primeiramente por Deus na igreja pelo caráter fundamental de seu chamado e obra, conforme já vimos acima: Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ef 2.20). Os doze e Paulo foram apóstolos de Jesus Cristo para lançar os fundamentos da Igreja e registrar a revelação:… o mistério… agora revelado aos seus santos apóstolos e profetas (Ef 3.5). Os profetas das igrejas vêm em segundo, em grau de importância, como os intérpretes e aplicadores da mensagem apostólica.24 E os mestres em terceiro, como aqueles que regularmente ensinavam nas igrejas com base nas instruções apostólicas, que cedo adquiriram forma escrita, ao lado das Escrituras do Antigo Testamento.

O significado de “primeiramente” (πρωτος 1Co 12.28) é crucial para entendermos o sentido de “apóstolo” aqui nesta lista.25 Este advérbio pode ser traduzido como “primeiro de uma série” ou “aquilo que é melhor, proeminente ou mais importante”.26 O contexto nos ajuda a decidir pela segunda opção. Nesta parte da carta, Paulo está estimulando os coríntios a buscarem o que é melhor para a edificação da igreja: Procurai, com zelo, os melhores dons (lCo 12.31). Portanto, a sequência “primeiramente… segundo… terceiro” destaca aqueles ministérios que são mais importantes para a igreja de Cristo, dos quais os “apóstolos” seriam os mais importantes, seguidos pelos profetas e mestres.27

Somente os doze e Paulo poderiam figurar como primeiros numa lista de importância de ofícios e ministérios que Deus estabeleceu na igreja. Conforme Carson, “é difícil imaginar por que Paulo designaria como ‘primeiramente, em qualquer sentido, aqueles que eram apóstolos num sentido derivado – mensageiros das igrejas, talvez”.28

De acordo com Godet, Paulo teria começado a lista pensando em enumerar apenas uma variedade de ministérios e dons que Deus havia estabelecido na igreja. Ao deparar-se com a desigualdade de importância e utilidade entre eles, decide então ordená-los conforme o seu valor para a igreja. A lista, portanto, reflete a primazia do oficio de apóstolo tanto porque veio primeiro como por sua dignidade.29 

Notemos ainda que os “apóstolos” desta lista foram estabelecidos “na igreja,” εν τη εκκλησία, e não “nas igrejas”. Esta qualificação cabe apenas aos doze e Paulo, que tinham um ministério universal e não local. Paulo inicia esta lista de ofícios e dons dizendo que Deus os estabeleceu “na igreja”. Diversos estudiosos têm observado que esta é provavelmente a primeira vez em que a palavra “igreja” é usada por Paulo para se referir à igreja universal e não a uma igreja local.30 A importância desta observação está no fato de que Paulo não pode estar pensando em apóstolos no seu sentido geral, mas nos doze e em si mesmo. Eles não eram oficiais ou ministros de igrejas locais, designados por elas para servir àquelas comunidades – como provavelmente era o caso com os “apóstolos das igrejas”, os profetas e os mestres. Eles eram ministros estabelecidos por Deus sobre toda a igreja, isto é, eles eram apóstolos para as igrejas de Corinto, Éfeso, Colossos, Roma, etc., e também para todas as que haveriam de vir, até os nossos dias. E nesse sentido que a igreja cristã atual também é apostólica. Ela se baseia na doutrina dos apóstolos que foi preservada nos escritos apostólicos. Notemos que, na outra lista de dons que aparece neste mesmo capítulo (1Co 12.8-10), Paulo tem em mente a igreja de Corinto. Nela, ele descreve os dons que estavam presentes naquela igreja. Os apóstolos não aparecem nesta lista.31 

Quanto à objeção de que necessariamente teríamos de incluir profetas e mestres também como ofícios da igreja universal, podemos ponderar, como C. K, Barret, que “Paulo usa a palavra igreja’ aqui nos dois sentidos [universal e local] e que este sentido muda à medida que o texto progride: apóstolos na igreja universal e profetas nas assembleias das igrejas locais”.32

Em conclusão, entendemos que “apóstolos” em 1 Coríntios 12.28 é uma referência de Paulo aos doze e a si mesmo, como o ofício mais elevado na igreja de Cristo, devido à sua função de trazer a Palavra por revelação divina, e assim estabelecer os fundamentos da igreja juntamente com os profetas do Antigo Testamento (Ef 2.20). Portanto, não se pode usar esta passagem para a reivindicação de que existe o dom de apóstolo e que o mesmo está em operação em nossos dias, uma vez que as qualificações do ofício não estão mais disponíveis.

 

Apóstolo era um dom espiritual? (2/2)

 

NOTAS:

  1. É no mínimo interessante que Clark, em seu artigo, trata destas duas passagens em conjunto numa seção intitulada “Problem passages” (“Passagens problemáticas”), cf. “Apostleship,” 365ss.
  2. Por exemplo, Arthur Patzia, Ephesians, Colossians, Philemon em New International Biblical Commentary (Peabody, MS: Hendrickson Publishers Inc., 1984); Ralph Martin, Ephesians, Colossians, and Philemon em Interpretation (Atlanta: John Knox Press, 1991). Mas, veja um posicionamento distinto em Klyne Snodgrass, Ephesians em The NIV Application Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 1996), 202, que rejeita esta reconstrução liberal, bem como Kirk,“Apostleship since Rengstorf,” 258.
  3. Cf. John B. Polhill, Acts, vol. 26, The New American Commentary (Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1995), 53-54.
  4. Cf, por exemplo, as introduções ao Novo Testamento de Donald Guthrie, Robert H. Gundry, D. A. Carson, etc. Embora o argumento carisma versus oficio não tenha mais tanta credibilidade nos meios acadêmicos, a autoria paulina de Efésios continua sendo questionada por autores liberais com base em outros argumentos.
  5. Notemos que o próprio Tiago, que era muito próximo dos doze e considerado um homem apostólico, não se apresenta como apóstolo em sua carta (cf.Tg 1.1), enquanto que Paulo e Pedro consistentemente usam este título (cf. 1Pe 1.1; 2Pe 1.1; Rm 1.1; Ef 1.1; etc.).
  6. Silas tinha o dom de profetizar, At 15.27. Veja a exortação de Paulo a Timóteo para reavivar o dom que havia recebido pela imposição de suas mãos e dos presbíteros (1Tm 4.14; 2Tm 1.6), bem como sua exortação para que ele fizesse a obra de um evangelista (2Tm 4.5).
  7. Notemos a relação com ICo 12.18.“Deus dispôs” e “Deus estabeleceu” traduzem a mesma frase em grego, £0£to ó 0£Òç. Cf. F. Godet, Commentary on St. Paul’s First Epistle to the Corinthians (Edinburgh: T & T Clark, 1890), 222.
  8. Cf. Robertson, Corinthians, 280. A NVI e a NTLH traduziram, equivocadamente, na minha opinião, esta lista sem fazer a distinção entre pessoas (apóstolos, profetas e mestres) e dons (milagres, curas, socorros, etc.). Cf. p. ex. N VI: “Na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dom de prestar ajuda, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas”. Cf. a tradução correta da ARC,”E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente, apóstolos, em segundo lugar, profetas, em terceiro, doutores, depois, milagres, depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas”.
  9. Assim Barrett, Corinthians, 295; Robertson, Corinthians, 280.
  10. Cf. sobre isto Lopes, O Culto Espiritual. Veja ainda Godet, Corinthians, 222.
  11. Barrett, Corinthians, 295.
  12. Robertson, Corinthians, 279.
  13. É o que sugere Godet, Corinthians, 224.
  14. Hans Conzelmann, 1 Corinthians (Philadelphia: Fortress Press, 1975), p. 215; Adolf von Hamack, The Mission and Expansion of the Christianity in the First Three Centuries. Vol. 1 (New York: Harper, reimpressão 1962), pp. 319-368; Gordon Clark, First Corinthians: a contemporary commentary (Jefferson, Md: Trinity Foundation, 1991), p. 200.
  15. John MacArthur, 1 Corinthians, em The MacArthur New Testament Commentary (Chicago: Moody Press, 1984), 322-323.
  16. João Calvino, 1 Coríntios (São Paulo: Edições Parácletos, 1996), 390. Para Calvino, os profetas eram expositores e pregadores da Palavra e este ofício permanece hoje no ofício de pastores e mestres.
  17. Robertson, Corinthians, 279.
  18. MacArthur, 1 Corinthians, 323; Gregory J. Lockwood, 1 Corinthians (Saint Louis: Concordia, 2000), 452; Carson, Showing the Spirit, 88-91.
  19. Cf. Godet, Corinthians, 224; Barrett, Corinthians, 294-295; Robertson, Corinthians, 279; Morris, First Corinthians, 175.
  20. Robertson, Corinthians, 279.
  21. Carson, Showing the Spirit, 90.
  22. Cf. Carson, Showing the Spirit, 88-91; Lockwood, 1 Corinthians, 452.
  23. Cf Carson, Showing the Spirit, 90.
  24. Para Calvino, esses profetas não eram dotados do dom de vaticinar (predizer), mas eram expositores e intérpretes da Palavra de Deus, hábeis para aplicar seu ensino às circunstâncias presentes (Calvino, 1 Coríntios, 390). Nesta mesma linha, veja J. Gillespie, “Interpreting the Kerygma: Early Christian Prophecy According to 1 Corinthians 2:6-16,”, em Gospel Origins & Christian Beginnings, eds. J. E. Goehring, et al. (Sonoma, CA: Polebridge Press, 1990), pp. 151-66. De acordo com Thomas Gillespie, os profetas cristãos foram os primeiros intérpretes do kerygma, isto é, da proclamação apostólica, e, portanto, os primeiros teólogos cristãos cf. Thomas Gillespie, The First Theologians. A Study in Early Christian Prophecy (Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., 1991).
  25. Cf. Carson, “A palavra reveladora, acredito, é primeiramente'” (Showing the Spirit, 90).
  26. Cf. Louw & Nida, TTpôJTOÇ; TDNT, Trpcotoç
  27. Cf. Calvino, 1 Coríntios, 392; Morris, First Corinthians, 143; Carson, Showing the Spirit, 36 (embora relutante); Barrett, Corinthians, 295. Os coríntios, por assim dizer, tinham a sua própria lista de dons por importância. Não é difícil imaginar qual ocupava o topo da lista: as línguas! Paulo toma a lista dos coríntios e a coloca de cabeça para baixo, em 12.28, invertendo a prioridade que eles davam ao dom de línguas, colocando- -o como último da lista em importância.
  28. Carson, Showing the Spirit, 90.
  29. Godet, Corinthians, 222-223. Nesta mesma linha, Robertson, Corinthians, 278-279.
  30. Como Robertson, Corinthians, 278; Morris, 1 Corinthians, 174; Lockwood, 1 Corinthians, 452.
  31. Cf. Godet, Corinthians, 223.
  32. Barrett, Corinthians, 293.

 

 

Autor: Augustus Nicodemus Lopes

Trecho extraído do livro Apóstolos: verdade bíblica sobre o apostolado, pág 123-134. Editora: Fiel

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