O uso das Escrituras na Filosofia (2/2)

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O QUE É CALVINISMO?

O calvinismo, de semelhante modo, também é um conhecimento não-científico. Entretanto, é mais do que um agregado de conhecimento que se apoia na expansão do horizonte, vindo a entrar em contato com diferentes pessoas de tempos em tempos, isto é, a expansão de uma área de observação – na verdade, é a visão que nos foi passada no lar, ou que talvez tenhamos adquirido com dificuldade. Não é uma concepção científica, mas uma visão acerca de Deus, do mundo, da vida, do homem, de nossos semelhantes e também de nós mesmos.

Tal visão deixa sua marca no ser humano: é possível ver nos rostos de alguns humanistas o “ser humanista”; nos rostos de alguns católicos romanos, o “ser católico-romano”; o mesmo vale para alguns indivíduos calvinistas. No entanto, tal visão não é, de modo nenhum, ciência. Há calvinistas firmes, tanto homens quanto mulheres, que não se aplicam ao estudo, por impossibilidade ou falta de vontade; contudo, embora não possuam tempo ou desejo para o trabalho científico, eles levaram adiante e incentivarão a ação calvinista com orações, ajuda financeira ou dádivas.

Tendo isto em vista, passo agora a tratar do conhecimento científico. Ora, este último inclui o conhecimento científico especializado, que se limita a uma só área, mas abrange também o conhecimento filosófico. Esses dois conhecimentos não possuem uma relação clara entre si, no entanto, eles não coincidem, pois a filosofia é a ciência que busca aprender de todas as ciências especializadas, uma vez que se interessa por todas as coisas. No entanto, ela dá prosseguimento à inquirição, visto que se preocupa também com as relações internas dos campos de investigação, dos quais as ciências especializadas se ocupam individualmente. A filosofia também levanta questões acerca dos métodos, os quais são aplicados em cada ciência especializada, a fim de fazer progresso.

 A filosofia é, portanto, a ciência geral; mas não uma bacia de captação. Ora, aquilo que a cosmovisão é para o conhecimento não-científico, a filosofia é para o conhecimento científico.

A RELAÇÃO ENTRE CONHECIMENTO NÃO-CIENTÍFICO E CONHECIMENTO CIENTÍFICO

De que modo se dá a relação entre conhecimento não-científico e conhecimento científico?

Jamais nos livramos do conhecimento não-científico. Quando estudamos, estamos construindo sobre o conhecimento não-científico. Houve um tempo quando a ciência, de modo crítico, concebia todo o conhecimento não-científico como algo que deveria ser superado. No entanto, ela abriu mão de tal posição. O homem de ciência também parte dos sons e cores – estes de fato existem! Não dentro de nós, mas fora de nós! A cor se encontra no exterior, e ouvimos o som a vários metros de distância; existem fora de nosso pensamento, e os tomamos, pois, como ponto de partida. E apenas quando alguém se firma nesses elementos, é que podemos prosseguir e investigar. De outro modo, tudo se torna confuso, não restando mais nada, devido à crítica de nossa ciência labiríntica.

Agora, quando prosseguimos, também é necessário a visão geral da filosofia. Esta, no entanto, se encontra em conformidade com o conhecimento não-científico: se constrói sobre e especula a respeito dele.

No conhecimento não-científico, o conhecimento de fé também desempenha um papel. Caso tu não creias, e permaneceres na descrença, terás uma filosofia na qual a descrença, esse erro, desempenha um papel. Contudo, quando crês em Deus mediante Sua Palavra e nela crês, tu obténs uma filosofia, cuja base é formada pela fé não-filosófica e não-científica em Deus e nas Sagradas Escrituras.

Portanto, a fé não se torna filosófica mediante tal ato.

As Escrituras iniciam com esta majestade: no princípio criou Deus os céus e a terra. Todo aquele que crê nisso, não é consequentemente um homem ou mulher de ciência. Entretanto, pode continuar tranquilamente crendo nisso, mesmo quando se aplica à pesquisa. Pois não há ciência que possa excluir isso do indivíduo: aquele que perde sua fé por causa do ambiente acadêmico não a perde como uma consequência de investigações – ele a perde na luta contra aquela descrença que se sustenta, entre outras coisas, com a ajuda de vários elementos de tradição pagã na ciência.

Logo, podes construir tua ciência sobre a fé nas Escrituras e em Cristo. E, desse modo, adquire para si uma filosofia que, no campo das ciências, possui o mesmo êxito que o calvinismo possui no que diz respeito à biocosmovisão, na área não-científica.

A BASE DA FILOSOFIA CALVINISTA

Dessa maneira, a filosofia calvinista deve partir de uma base não-científica. Com efeito, toda filosofia assim o faz; no entanto, nem todas elas se dão conta disso. Essa base supracitada nos é dada nas Sagradas Escrituras. Precisamente por esse motivo, seus conteúdos não devem servir como uma superestrutura, quer seja no modo paradoxal ou no católico-romano [i.e. dicotomia natureza-graça]. E, de semelhante modo, as Escrituras não podem ser analisadas exegeticamente num sentido filosófico, e nem a fortiori [por uma razão ainda mais forte] segundo um sentido de interpretação pagão.

Se alguém busca levar a sério o primeiro ou segundo desses modos, então terá que estudar o pensamento pagão em toda sua história: somente desse modo será capaz de compreender seus dilemas e refutá-los. Como exemplo de dilema, podemos citar aquele existente entre monismo e dualismo. Com monismo, subentende-se a ideia de unidade, que implica que Deus e o mundo são (supostamente) a mesma coisa, ou que existe (supostamente) uma unidade entre eles, da qual ambos, Deus e o mundo, se originaram. Com dualismo, subentende-se a correlação segundo a qual Deus e as coisas – o mundo ou a matéria – são originalmente correlatos entre si. O dualismo é, portanto, algo totalmente diferente do reconhecimento da dualidade: aquele que confessa que o mundo foi criado reconhecerá tranquilamente que Deus e o mundo são duas coisas distintas; mas ao mesmo tempo ele forçosamente rejeitará, devido à sua fé, a ideia dualista de que Deus e o mundo são ambos eternos ou ambos temporais.

Agora, pelo contrário, a lei e as coisas sujeitas à lei – pois uma lei sem algo sobre o qual é válida é tão absurdo quanto um elemento sujeito sem lei – estão correlacionadas.

Ora, como se sabe, a lei ocupa um papel importante no pensamento calvinista. Ao tratar sobre a lei dos Dez Mandamentos, é preciso discernir seu uso tripartido: é um freio para os ímpios, pedagogia para conduzir a Cristo e parâmetro de santificação. No fundo da questão, esse uso tripartido remete a um só tema: a lei como mandamento do amor é a norma para vida humana. Pois inicialmente aplicada ao Paraíso, essa lei veio a se virar contra nós com sua maldição, quando, após tendo nós pecado, ela não se furta de exercer seu juízo; ao passo que agora, após Cristo tê-la cumprido perfeitamente, é agora reconhecida pelo cristão como norma para sua vida. A lei, nesse sentido, permanece fora e acima de nós: mesmo quando, no estado de justificação e união com Cristo, a vida está de acordo com a lei, ela não coincide com esta última. Afinal, o mandamento: “não farás” é algo diferente do cumprimento deste mandamento.

A filosofia calvinista somente pode afirmar tanto um quanto o outro. Nesse meio tempo, ela se depara com o termo “lei” num outro sentido, a saber, trata-se da “lei no cosmos” e da “lei positiva”.

Quando as ciências especializadas buscam leis e formulam seus resultados preliminares, ela pretende descobrir a regularidade no cosmos. Ora, já por esse motivo a lei nesse sentido difere do mandamento do amor. Acima e além deste último, a almeja regularidade implica naquilo que está em conformidade com o mandamento do amor, bem como naquilo que se encontra em conflito com ele: consequentemente, é possível apresentar estatísticas tanto do número de casamentos e nascimentos quando do número de divórcios e assassinatos. Com isso, não se perde a oposição entre bem e mal, amor e ódio, obediência e desobediência ao mandamento do amor, mas transversalmente a ela (a oposição) se encontra a oposição entre regularidade e irregularidade.

O relacionamento mútuo que existe entre essas duas leis não é o relacionamento que existe entre as funções superiores e inferiores. Pois, afinal, o mandamento do amor reivindica a totalidade do ser humano, e o cálculo estatístico da regularidade e irregularidade, de semelhante modo, faz sentido tanto para o conhecimento das funções superiores quanto para o conhecimento das funções inferiores. Essa relação não é de maneira alguma redutível a uma dualidade de fontes do conhecimento, ainda que o mandamento do amor somente possa ser encontrado por meio das Escrituras e a regularidade, diferentemente, fora delas. Porque, enfim, o mandamento do amor somente se torna claro para nós quando investigamos a história do cosmo; e esta última, a qual continua a desempenhar um papel importante na tão almejada busca pela regularidade [do cosmo], não será compreendida sem que se leve em conta as linhas principais de sua história, tal como apresentada nas Escrituras. Partindo-se tanto do mandamento do amor quanto a lei da regularidade do cosmo, segue-se que, ainda que concepções incorretas no que concerne às relações mútuas dessas duas leis devam ser rejeitadas, ambas possuem, de fato, uma coerência mútua.

Tal coerência primeiramente se fundamenta em Deus, pois é a vontade dEle que se encontra por trás dessas duas leis: pode-se pensar aqui na famosa distinção de vontade de mandamento e vontade de decreto [ou decisão].

É possível identificá-las com a vontade revelada e a vontade oculta de Deus, já que a primeira distinção diz respeito à vontade de Deus à parte de Sua cognoscibilidade; a outra, diz respeito à relação de sua vontade com nosso conhecimento. Fora disso, a vontade de mandamento, de longe, não é totalmente clara para nós, ao passo que, por outro lado, podemos investigar a vontade de decreto, tão logo o decreto tenha se realizado.

Desse modo, finalmente o sentido da lei positiva se torna compreensível. Tal lei certamente não é a fórmula para se descobrir a regularidade: ela não registra, descreve ou declara, no entanto, direciona a vida rumo a uma determinada direção. Contudo, de semelhante modo, não é idêntica ao mandamento do amor: repetidamente prova-se necessário, com base precisamente no mandamento a que se destina, criticar um construto de uma lei, e caso esse esforço se mostre infrutífero, é preciso buscar substituir a regra por uma outra melhor, elevá-lo à condição de lei positiva, assim que possível. Entretanto, é justamente pelo fato de que a lei positiva não é idêntica à lei como regularidade nem ao mandamento do amor, que ela pode fazer ambas convergirem – pois a lei positiva possui exatamente este sentido, positivar os mandamentos divinos do amor em sua especificidade numa estrutura social qualificada, isto é, por uma estrutura social específica durante um período específico de tempo. Por essa razão, uma lei positiva se liga apenas àqueles que pertencem a uma estrutura social relevante durante a validade desta. Contudo, eles se ligam entre si como mandamento de Deus, ainda que somente indiretamente: pode se pensar aqui na motivação concernente a isso no Catecismo de Heidelberg: pois é a vontade de Deus nos governar pelas mãos deles [Pergunta 104].

É claro que várias questões ainda permanecem. Deve-se ver o que aqui foi exposto apenas como um esforço inicial, que busca demonstrar como, também em sua análise do conceito de lei, a filosofia calvinista permanece fiel à sua base religiosa, estando atenta, pois, tanto para as necessidades práticas quanto das ciências especializadas.

 

O uso das Escrituras na Filosofia (1/2)

 

Autor: Dirk H.Th Vollenhoven

Fonte: kgsvr

Tradução: Fabrício Tavares

Divulgação: Reformados 21

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