O problema do mal (2/2)

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A confissão de Westminster afirma que Desde toda eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho de sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas (3.1). Essa afirmação cuidadosa diz que:

  1. Tudo o que acontece é ordenado pela vontade de Deus.
  2. Deus não é o autor do pecado.
  3. Nenhuma violência é feita à vontade da criatura.
  4. A contingência das causas secundárias é estabelecida pela preordenação divina.

Essas afirmações implicam uma visão específica da relação que Deus tem com o pecado e outros  males. Eles estão todos inclusos na ordenação livre  e imutável de Deus, ao mesmo tempo em que Deus  não é o autor do pecado. Isso é assim: primeiro, porque Deus não viola a vontade humana, forçando as pessoas  a pecar contra elas e, segundo, porque as causas secundárias  que dão surgimento ao pecado são asseguradas em suas operações pelo mesmo sábio e santo conselho que assim ordena. Deus é a primeira causa de tudo o que acontece (incluindo todos os males), porque como Criador ele causa tudo quanto acontece. As “causas secundárias” são as últimas coisas na sequência dos eventos (como Satanás,  Adão  e eu), de quem os pecados procedem diretamente. Essas causas secundárias são os autores do pecado, porque elas são a causa direta do pecado. Segundo a Confissão de Westminster, Deus é santo e separado do meu pecado por não ser a causa direta (o autor) dele. Uma causa pode ser última (da qual Deus é a causa original) ou pode ser imediata. Portanto, o pecador, não Deus, é o autor do pecado pela mesma razão que um pai não é o autor do livro de seu filho.

A concepção de que a Confissão tem desse assunto sumariza a visão do próprio João Calvino em seu tratado Sobre a Eterna Predestinação de Deus (1552).

Primeiro, deve ser observado que a vontade de Deus é a causa de todas as coisas que acontecem no mundo; e, todavia, Deus não é o autor do mal (pág. 169), Porque a causa imediata é uma coisa, a causa remota é outra (p.181). Todavia, certas pessoas sem-vergonha e mesquinhas nos acusam com calúnia de sustentar que Deus é o autor do pecado, se sua vontade é considerada a causa primeira de tudo o que acontece.

Calvino rejeita especificamente o desvio de que os males vêm a existir, não por sua vontade, mas meramente por permissão (p.176). Ao contrário, a vontade de Deus é a causa principal de todas as coisas. Mas as causas remotas ele esconde em si mesmo, de forma que dentre elas o que ele torna possível por elas é necessário. Deus não faz nada sem a melhor das razões. Mas visto que a regra mais certa de justiça é sua vontade, ela deve ser, se eu posso dizer, a razão principal de todos os nossos raciocínios.

O leitor é remetido à seção 10, intitulada Providência (pág. 162-185), onde o grande Reformador resume sua posição.

A Responsabilidade Novamente

Eu já observei que a palavra responsável é simplesmente sinônima de responder por, e que a Bíblia baseia a responsabilidade humana em três coisas:

  1. Há o direito do Criador de fazer o que ele quer com sua criação (Mt 20:15; Rm 9:18-23). Portanto, a criatura está obrigada a prestar contas a Deus, se assim  for chamada para fazer. Neste sentido mais fundamental, Deus não pode ser responsável por tudo o que ele faz, porque não há ninguém a quem ele tenha que prestar contas. A alternativa oferecida pelo arminianismo  é que eu chamo a Deus para que preste contas simplesmente porque apelo para minha consciência instintiva de que, nesse caso, deve haver um bem supremo que é maior que o próprio Deus. Simplesmente essa não é uma solução cristã para o problema. É apenas um humanismo escondendo-se por detrás da linguagem da piedade tradicional.
  1. Somos responsáveis no sentido em que um cozinheiro é responsável pela comida que ele faz, isto é, ele é quem a faz. Portanto, os pecadores pecam, e tendo pecado, são responsáveis pelo que eles fizeram. Do mesmo modo Deus é responsável pelo mal em três sentidos:
  1. Ele criou um mundo no qual o mal era inevitável, dadas as condições iniciais da  Queda.
  2. Ele permite muitos males que facilmente ele poderia evitar ou aliviar.
  3. Ele continua a sustentar a existência do mundo de tal modo que os males continuam.

Para o cristão, este é o mundo de Deus. Ele não é possuído por Satanás, nem é feito de uma matéria misteriosamente má, emergindo de uma caos anterior (compare com Flew, God and Philosophy,  parágrafo 2.34, 2.39, p. 43-47).

Todavia, Deus não é responsável pelo mal no sentido em que ele não é responsável perante ninguém. Ao contrário, o, pecador é responsável diante de Deus. Esta é claramente a perspectiva de Paulo em Romanos 9:11.

  1. Há graus de responsabilidade de acordo com os graus de conhecimento que temos. Aqueles que pecam tendo mais conhecimento serão punidos mais severamente. Enquanto Deus tem um conhecimento de todos os seres passados e futuros, não há ninguém contra quem ele possa pecar, porque sua vontade é o padrão do bem, diz Calvino, contra Sócrates.

Se temos essa base bem clara na Bíblia para nosso conceito de responsabilidade, que necessidade mais temos de uma teoria extra bíblica que realmente solapa a conexão entre a pessoa e o ato, legando uma vasta esfera da realidade ao caos e a antiga escuridão, sem ter a sustentação para a responsabilidade?

Precisamos chegar a um acordo com todos os dados da Bíblia sobre o alto grau de controle divino tanto sobre os eventos físicos como mentais. Se minha ideia de Deus não pode estar à altura desses dados da revelação, tanto pior para “minha ideia” de Deus. Quanto mais omitimos da Bíblia em nosso ensino para essa geração, mais a próxima geração se sentirá livre para se afastar ainda mais longe do que nós da plenitude e da coerência da cosmovisão cristã.

Quando Paulo despediu-se dos presbíteros de Éfeso  (Atos 20:17-35), ele assinalou  dois pontos que são relevantes aqui. Ele os advertiu dos falsos mestres que estavam surgindo na própria igreja e disse-lhes que deviam ensinar  todo o conselho de Deus, não apenas as poucas coisas que as pessoas queriam ouvir. Na sua última carta, ele disse que tempo viria quando a Sã Doutrina se tornaria universalmente impopular e que, quando isso viesse sobre as igrejas, a resposta correta seria ensinar, de algum modo, todo corpo da verdade revelada (2Tm 4:1-5).

A questão da responsabilidade é, portanto,  a reflexão na esfera moral da relação entre a criatura e o Criador, da ontologia do próprio fato da criação. Ela está severamente prejudicada pela introdução do vírus auto reprodutor do autonomismo apóstata num programa coerente sob outros aspectos.

 

O problema do mal (1/2)

 

Autor: R.K. MacGregor Wright

Trecho extraído do livro A Soberania Banida, pág 216-218. Editora: Cultura Cristã

Reformados 21
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