O Islamismo é a “religião da paz” (2/2)?

Share

No máximo, há muçulmanos que não estão empenhados na jihad, na guerra santa, 100% dos seus dias, como nem todos os cristãos são Cruzados ou debatedores escolásticos. A diferença é que o islamismo exige isso de todos os fiéis, enquanto a espada cristã é a defesa contra a tirania daqueles não-seguidores de um Amai-vos uns aos outros.

A religião da paz, que contra o “mundo da guerra” pode mentir (taqiyya, a mentira estratégica e permitida pelo Corão para engabelar o kafir, os não-muçulmanos, e a kitman, a mentira por omissão), quando estabelece a shari’ah, pode exigir um imposto de não-muçulmanos (a jizya, que pode chegar a 50% da produção anual, ou a musta’mins, para os não-residentes) e até passar ao assassinato de infiéis que se recusarem a se converter, quando tiverem estabelecido uma maioria populacional ou assumido os tribunais e a obediência jurídica local às ordens da Umma, a comunidade islâmica internacional, geralmente com referência a um califado – exatamente a situação que hoje enfrenta a Europa, que desconhece quase na inteireza o que está vivendo, sem saber que o Estado Islâmico é, justamente, a criação deste novo califado.

Portanto, não se deve entender “paz” quando se fala da “religião da paz” no sentido moderno do termo “paz”, como se muçulmanos pregassem tolerância com “blasfemadores”, como se as leis tirânicas de países muçulmanos fossem acidentais e desconectadas do Corão (e como se todas fossem igualmente tirânicas por mera coincidência), como se Maomé fosse um homem que sentasse ao lado de Benjamin Netanyahu, na ONU, e conversasse sobre igualdade entre povos e “dois Estados”, e não que tentasse matar cada judeu do mundo para reconquistar a mesquita de al-Aqsa (Maomé, ele próprio, narra como degolou 600 judeus em um único dia; e hoje a tomada de Jerusalém, que não é mencionada no Corão, é prioridade muçulmana, por se tornar a terceira cidade mais importante para os islâmicos).

Trata-se de “paz” como oposta ao “caos” de um mundo sem “ordem” – no caso, sem a shari’ah.

É um costume da esquerda multiculturalista tentar enxergar “luta de classes” entre povos a partir de “culturas exóticas” (costume muito difundido por livros como Orientalismo, do totalitário Edward Said), tratando-as como vitrine. É o chamado “pós-colonialismo”, crendo que tudo o que seja contrário à Inglaterra, à América e a Israel é válido.

É dificílimo encontrar algum esquerdista que saiba 10% do que vai nas linhas acima; tampouco atentam para o fato de que tratar “povos exóticos” como merecedores de um comportamento fechado, imposta pela shari’ah, é tratá-los como massa de modelar, a divertir os nobres e seculares esquerdistas protegidos pela distância da civilização ocidental e de sua liberdade de pensamento.

Mas o Antigo Testamento não é igualzinho?

Nossa própria visão do que é uma “religião” deriva de duas religiões (judaísmo e cristianismo) que nunca impuseram normas sociais, e sim de auto-organização (ver mais nos próximos artigos). Nosso próprio conceito do que é “secular” nasceu, afinal, de dentro da segunda religião.

Eric Voegelin, o maior filósofo político do mundo, em Ordem & História, sobretudo no primeiro volume, Israel e a Revelação, nota dois grandes “saltos no ser”, dois grandes eventos na história mundial que colocaram a humanidade num contato maior com seu próprio ser. Além da filosofia ateniense, um salto noético (do pensamento), há um mais antigo: a Revelação judaica, um salto pneumático (do espírito).

Anteriormente à Aliança Abraâmica, as sociedades da Antiguidade fundavam-se como sociedades cosmológicas, isto é, não se consideravam apenas o “centro do mundo” (aquele axis mundi supracitado), mas o próprio mundo. Cultura são os símbolos que usamos para interpretar a realidade. Nestas culturas, os símbolos do cosmo e do indivíduo são os mesmos. Eventos como um filho nascendo deficiente, um casamento fracassado, uma colheita ruim ou um eclipse eram considerados parte do mesmo todo: uma falha no cosmo que precisava ser consertada pela unidade simbólica. Daí os sacrifícios humanos, os rituais de sangue, os poderosos demônios que precisavam ser saciados com o próprio povo.

A Aliança, com a abertura da alma para uma ordem supra cósmica, tira a ordem de uma tentativa social de plasmação do ciclo de morte e vida da natureza e refaz a sociedade buscando uma ordem na própria alma – um pacto com a deidade, e não mais uma comunidade cósmica.

O futuro povo de Israel, ainda nômade, pastoreando desprotegido entre impérios poderosíssimos, não possuindo uma ordem cosmológica pronta como os violentíssimos Egito, Assíria e Babilônia que os assolavam, vive na incerteza, exigindo ações da alma individual e reincorporações da Verdade n’alma.

Também não sendo mais uma sociedade cosmológica, o povo de Israel vive na dimensão da História, uma nova forma de atuação inédita ao mundo. Israel não tem mais uma ordem fixa, mas uma missão a ser cumprida dentro desta História, observado com diferentes proximidades pela transcendentalidade de um Deus onisciente que os vigia e os julga de fora do mundo.

O Antigo Testamento, portanto, é o primeiro livro de História do mundo. Mais do que isto, é uma compilação de diversos momentos do povo de Abraão, suas guerras internas entre as 12 tribos, suas separações e reencontros, seus primórdios com o Criador, sua fuga como escravos, suas vagações, errando como excluídos por entre impérios assentados e violentos, sua busca de uma monarquia, seu reino desfacelado, sua reconfiguração na busca de sua Terra Santa, os diversos ataques e guerras, muitas delas internas, até o fim do mundo e o julgamento final.

Muito do que é compilado em suas páginas, incluindo guerras violentíssimas, não é uma prescrição e um modelo de conduta a ser copiado, como os arquétipos junguianos interpretando mitos (narrativas): são histórias de fracassos passados (de Efraim a Jó), alertando sempre os israelitas de que seu futuro é ameaçado e de que o homem é falível.

Vários dos momentos aparentemente legisferantes, como no Deuteronômio, muitas vezes já eram passados quando foram redigidos, mostrando que as tentativas anteriores de estabelecimento de leis humanas (diferentes das leis da Revelação) são falíveis (Maomé, quando descreve a shari’ah, acredita estar criando a “verdadeira” lei da Revelação, infalível em impor uma nova ordem de “paz”).

Trechos como este, do Deuteronômio, costumam ser citados em discussão de internet para garantir uma “igualdade” entre religiões, sempre do judaísmo e do cristianismo em relação ao islamismo:

Deuteronômio 13:6-11 – Quando te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo-te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais; Dentre os deuses dos povos que estão em redor de vós, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até à outra extremidade; Não consentirás com ele, nem o ouvirás; nem o teu olho o poupará, nem terás piedade dele, nem o esconderás; mas certamente o matarás; a tua mão será a primeira contra ele, para o matar; e depois a mão de todo o povo. E o apedrejarás, até que morra, pois te procurou apartar do Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão; Para que todo o Israel o ouça e o tema, e não torne a fazer semelhante maldade no meio de ti.

Para os olhos abobados da modernidade e sua crença em si mesma, é o mesmo apedrejamento jurídico (da shari’ah) do islamismo. Mas, na realidade, não se trata aqui de saber se “judeus e cristãos já não fazem mais isso”, enquanto países muçulmanos fazem. Pelo contrário, Deuteronômio não fala de uma norma jurídica, e sim de palavras a serem guardadas no coração do fiel.

Pior: fala de prescrições humanas, falhas (diferentes das Leis do Sinai, ou da shari’ah islâmica), muitas sendo tomadas como maus exemplos. E no caso em questão, fala do comportamento das ainda nômades tribos israelitas diante da sedução de deuses (e demônios) das sociedades cosmológicas. Por exemplo, adorar o deus amonita (povo contra quem os israelitas vivem em banhos de sangue pelo Antigo Testamento) Moloch significa adorar um deus que exige constantes sacrifícios de bebês num fogo sagrado (sacrificador) para não despejar sua fúria cósmica sobre seus adoradores. É uma espécie de deus das feministas. Os bebês eram atirados no ventre de sua estátua, com corpo humano e cabeça de boi ou leão.

Quando o Deuteronômio fala, em termos antigos, de apedrejar aqueles que cultuam outros deuses, não se trata de mero barbarismo “igual ao islâmico”, com precisão legislativa para punir adúlteras nem da fúria de um Deus ciumento; trata-se de uma norma não jurídica, mas de uma prescrição tribal (violenta que seja) contra quem é seduzido por sociedades capazes, por exemplo, de sacrificar bebês. É o próprio Deuteronômio que proíbe o culto a Moloch (Dt 18:10) e, entre outros, a famosa passagem aberta de Levítico 18:21 (E da tua descendência não darás nenhum para fazer passar pelo fogo perante Moloch; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor).

Trechos como este seriam escritos hoje como: “Quem incitar seu povo a cultuar outras crenças, como a do nazismo, não deixe que ande junto de sua família, mas o denuncie sem medo às autoridades” (a autoridade, na sanguinária época tribal do Deuteronômio, ainda é o apedrejamento, sem uma cidade fixa com tribunal assentado). Nada surpreendente.

Já o Corão, como vimos, não é uma narrativa escrita por diversas mãos por mais de 800 anos, narrando diversas inglórias de um povo (a única sociedade nômade que sobreviveu no mundo, campeã de Prêmios Nobel, de tecnologia e vítima de ódio progressista até hoje). Não é um conjunto de diversos preceitos, muitos contraditórios entre si, que não perfazem um sistema jurídico, mas contam uma história errante coletiva. Não é a narrativa histórica de diversos momentos de um povo (de escravos a monarquistas), suas desventuras e as lições que devemos extrair de suas raras glórias temporárias e de seus recorrentes fracassos.

O Corão é o livro de um homem só, tentando utilizar as diferenças igualmente violentas entre tribos do deserto para a instauração de um jin, de uma visão única de mundo, que significa tanto “religião” quanto “visão de mundo”, quanto “partido político”, etc. Tais coisas não são distintas umas das outras, como acontece na simbólica e linguagem judaico-cristã (hoje, Israel é, afinal, uma república). Mesmo as narrativas das conquistas militares de Maomé, de seus falsos tratados de paz e trégua, das decapitações que promovia ele próprio são prescrições ou um modelo de conduta a ser copiado.

É inútil tentar entender o islamismo à luz de alguma artificial igualdade de situações, ou mirar textos apenas através de sua camada exterior, como encontrar a palavra apedrejar em textos completamente distintos (quando não opostos), e salpicar a conclusão com a visão progressista – de que todo o cristianismo e todos os judeus são ruins, mas os muçulmanos, se são inimigos da América, da Inglaterra, de Israel e de suas consequentes proteções das minorias, devem ser tratados apenas como um exotismo, e cada ato de violência como um “extremismo” que não paga nenhum tributo à religião.

O politicamente correto e a manipulação linguística da moderna análise do discurso estão cegando o Ocidente para perceber que os ataques em Paris significam não outra coisa do que o início da Terceira Guerra Mundial. Da civilização contra a religião mais assassina inventada desde as sociedades cósmicas anteriores à Revelação.

 

O Islamismo é a “religião da paz”? (1/2)

 

Autor: Flavio Morgenstern

Via: Senso Incomum

Reformados 21
Reformados 21
Site de Teologia e Apologética, cujo intuito é evangelizar, discipular, ensinar, combater as heresias e defender a fé cristã.