A fé neopentecostal

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Os curandeiros neopentecostais triunfalistas atribuem a fé como o fator determinante para que as bênçãos, curas e milagres aconteçam na vida do crente. Em contraposição, se o crente não conseguiu obter aquilo que foi pedido em oração a Deus ou “determinado”, o motivo do fracasso, segundo os profetas do “novo e falso Evangelho” neopentecostal, é que a fé do crente não foi forte o suficiente, impossibilitando-o de receber o que já é seu por direito. Conforme esta “teologia” ensina, a incredulidade impede a liberação das bênçãos.

Embora o “profeta” neopentecostal receba todos os créditos como o canal de Deus quando as bênçãos, curas e milagres acontecem, todavia ele não é culpado por sua falha quando um crente não as recebe. Culpar o próprio crente do seu fracasso é a justificativa perfeita para esses estelionatários da “fé”. Contudo, a Escritura demonstra o contrário disso.

Indubitavelmente, a fé não é o fator determinante para que as bênçãos, curas e milagres aconteçam, nem tampouco a incredulidade é a barreira que os impede de acontecerem. Se nos atentarmos para as Escrituras, iremos perceber que Jesus, em todo o seu ministério, curou e operou milagres por muitas vezes sem exigir fé da pessoa doente ou necessitada de um milagre.

Em Mateus 13.57-58, é descrito que os familiares, vizinhos e pessoas próximas de Jesus se escandalizavam nele. Essas pessoas não o reconheciam como o Messias, o Cristo, filho de Deus (Jo 7.5). Por essa razão, ele não fez muitos milagres em sua cidade natal, Nazaré, apenas algumas poucas curas (veja o paralelo dessa passagem em Mc 6.1-6). Contudo, é importante observar que a incredulidade não impediu Jesus de realizar milagres naquela ocasião, mas que pela sua soberania, como Deus que é, simplesmente não quis realizar os milagres, independente se houve a incredulidade. O propósito maior do ministério de Jesus não consistia na operação de curas e milagres. A ênfase de Jesus era no ensino das verdades concernentes a redenção, ao reino de Deus, ao estado do homem caído, entre outros assuntos (veja Mc 6.5; Mt 4.23; 5,6,7; 9.35; Mc 2.13; 9.31; 10.1; Lc 4.15; 5.15; 6.6; 13.22; 20.21; 24.27; Jo 5.38,46-47; 6.44; 7.14,19,28; 8.20,28-45,51-59; 13.34-25, etc…). O propósito das curas e dos milagres era a confirmação da mensagem de Jesus, ou seja, que ele era o enviado de Deus Pai, o Cristo que haveria de vir resgatar o seu povo da escravidão do pecado e da morte eterna (At 2.22).

Podemos ver alguns outros exemplos de curas operadas por Jesus onde ele não exigiu fé das pessoas doentes, como em Mateus 19.1-2; 21.14. Temos o evento do homem da mão ressequida, relatado também em Mateus 12.9-15; a restituição da orelha do servo do sumo sacerdote que foi cortada por Pedro com uma espada (Lc 22.51); a cura de um homem paralítico (Jo 5.1-3, 5-9); um cego que não sabia quem era Jesus nem pediu para ser curado (Jo 9.1-12, 35-38). Em outras ocasiões, Jesus também ressuscitou pessoas mortas, como a filha de Jairo e Lázaro (Mc 5.21-24, 35-43; Jo 11.1-46). [Morto tem fé para ser curado? Acredito que não!] E, finalmente, outros eventos de curas realizados por Jesus estão registrados em Lucas 7.21; Mateus 14.14; 15.29-31 e Marcos 1.34.

Não obstante, vemos casos em que Jesus exigiu fé das pessoas doentes para serem curadas. Podemos observar o registro da mulher que sofria há doze anos com uma hemorragia (Lc 8.43-48); o cego de Jericó, que também pode ter sido convertido (Mc 10.46-52); os dez leprosos curados, onde somente um voltou para glorificar a Deus (Lc 17.11-19) e a mulher siro fenícia (Mt 15.21-28).

De modo semelhante, o mesmo ocorreu no ministério dos apóstolos: muitas pessoas doentes foram curadas sem que fosse exigida a fé delas. Em Atos 3.1-8, vemos que Pedro curou um homem coxo que ficava mendigando na porta do templo sem exigir a fé dele. Mais tarde, ele ressuscitou uma mulher morta, chamada Tabita (At 9.36-43). Paulo também ressuscitou um jovem chamado Êutico (At 20.7-12).

Sendo assim, então não é necessário ter fé para ser curado e receber as bênçãos de Deus? Não é necessário termos fé que Deus existe e que é abençoador daqueles que o buscam, conforme ressaltado em Hebreus 11.6? Todavia, precisamos entender que, primeiramente, Deus é soberano. Ele decide fazer o que quiser (Sl 115.3). Partindo desse pressuposto, Deus é quem decide se vai ou não abençoar, curar ou realizar qualquer milagre. O agir de Deus não depende da fé do crente para acontecer, mas exclusivamente da sua vontade soberana. Não somos abençoados pelas nossas “boas obras” diante de Deus, em primeiro lugar. Existem crentes neopentecostais que, por insipiência, pensam que se fizerem jejuns específicos por alguma bênção, se fizerem um propósito de oração no monte, na madrugada ou alguma “campanha na igreja”, receberão aquilo que tanto almejam. Não! Somos abençoados pela graça de Deus, a qual exclui os nossos méritos.

Contudo, é verdade que Deus utiliza o meio de graça denominado oração para nos abençoar, se assim for da sua vontade (veja Tg 4.13-15). Deus abençoa operando curas, realizando milagres e provendo em nossa vida pela fé e também independente dela. Deus não está limitado pela fé ou pela incredulidade das pessoas para agir providencialmente de modo soberano na terra. Ele possui todo o poder. Deus não depende nem tampouco está preso ao homem para agir no mundo. Se Deus não quiser abençoar, ele não vai abençoar, mesmo se o crente for alguém extremamente piedoso e orar por muitas vezes por determinada benção.

No entanto, é importante salientar que Deus determinou que a fé fosse o meio que ele utilizaria para se agradar em manifestar o seu poder abençoando, curando e realizando milagres na vida dos seus filhos, mas não que Deus dependa da fé ou da incredulidade para agir providencialmente no mundo e na vida das pessoas em geral, quer sejam crentes ou não. Até o não crente é abençoado por Deus através da sua graça comum, que é uma manifestação da sua misericórdia e bondade para com todos (Mt 5.45; 6.26; Sl 36.6c; 145.15-17). Deus é soberano e abençoa quem quer, como quer e quando quer! Portanto, a fé que o neopentecostalismo triunfalista ensina é peremptoriamente equivocada e herética, pois “submete” Deus, o criador, na condição de servo de suas criaturas, aquele que é obrigado a conferir todas as coisas que lhe são ordenadas pelos “crentes neopentecostais”.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

 

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