Quando perdemos o amor por Deus

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Texto base: Apocalipse 2.1-7

A carta de Jesus à igreja de Éfeso é também a carta de Jesus à nossa igreja.1 Ela é oportuna, necessária e atual. Esta carta não retrata somente a situação espiritual da igreja histórica de Éfeso, que havia deixado de praticar o amor, mas também demonstra a situação espiritual que assola a igreja hodierna, que também deixou de vivenciar o amor.

 

INTRODUÇÃO

Na igreja primitiva, as pessoas consideravam Éfeso uma cabeça de ponte na província da Ásia, isto é, a cidade mais importante; por isso ela a primeira entre as sete igrejas a receber uma carta e ser denominada a igreja mãe da província da Ásia.2

O esboço analítico desta carta pode ser dividido em 4 seções:

  1. O caráter glorioso de Cristo (vs.1)
  2. Um catálogo de elogios (vs.2-3,6)
  3. Uma severa avaliação (vs.4-5)
  4. Uma Promessa de Jesus aos vencedores (vs.7)

 

EXPLANAÇÃO

  1. O caráter glorioso de Cristo (2.1)

a) O remetente e o destinatário da carta (vs.1a)

A palavra anjo, no grego άγγελος (aggelos), significa “mensageiro, aquele que anuncia ou ensina algo”. Nesse caso, refere-se ao presbítero da igreja de Éfeso.3 Conforme é descrito na passagem, Jesus instruiu João a escrever uma breve carta destinada aquele que representava a igreja em Éfeso.

Todavia, foi o Senhor Jesus que instituiu aos presbíteros a responsabilidade de serem os líderes da igreja (Ef 4.11), cuja função é administrá-la/supervisioná-la, ensinar a Palavra de Deus, orar, visitar os irmãos e zelar pela vida de todos, seguindo o exemplo de Cristo, como o supremo e o bom pastor que é (Jo 10.11). Assim sendo, os presbíteros também prestarão contas a Deus das almas que estiveram sob a égide deles (Hb 13-17b).

b) O contexto de Éfeso (vs.1a)

Éfeso era a capital e a cidade mais rica e importante da província Romana da Ásia menor. “Era tanto um centro comercial quanto religioso (muitas vezes chamado de o mercado da Ásia) e também político”.4 Eles cultuavam a deusa Ártemis ou Diana, uma deusa da fertilidade e da abundância. Diana foi identificada com a deusa grega Ártemis, que depois absorveu a sua identificação.

O templo da deusa Diana constituía uma das sete maravilhas do mundo antigo; era uma das grandes atrações turísticas daquela época. Uma das indústrias mais importantes de Éfeso era a fabricação de imagens dessa deusa (At 19-24, 31,38). Por conseguinte, Éfeso era uma cidade mística, supersticiosa e também um dos centros do culto ao imperador Domiciano.

Paulo chegou nesta cidade no final de sua segunda viagem missionária (At.18-18-19), por volta do ano 52 d.C., iniciando sua terceira viagem missionária, permanecendo lá por 3 anos (At 20-31). A estadia de Paulo em Éfeso foi a sua mais longa permanência em um só lugar em comparação com suas outras viagens missionárias.

A maioria dos judeus e gentios que residiam em Éfeso rejeitaram a mensagem do apóstolo, onde se tornaram seus perseguidores hostis e implacáveis (At 19.23-41). Por outro lado, alguns receberam de bom grado o Evangelho e foram convertidos por Deus.

Houve sinais de avivamento em Éfeso (At 19-18, 19). Ao ouvirem o Evangelho, as pessoas denunciavam publicamente as suas obras; romperam totalmente com o ocultismo, queimando seus livros mágicos; o Evangelho espalhou-se dali por toda a Ásia menor.5

Não obstante, após ter sido preso em Roma, por volta do ano 62 d.C., Paulo escreve uma carta aos Efésios, onde Timóteo estava pastoreando a igreja na época, combatendo falsas doutrinas disseminadas por alguns falsos mestres, entre eles, Himeneu e Alexandre, os quais eram provavelmente presbíteros em alguma das congregações em Éfeso (1Tm 3.3-20).

Depois de 40 anos em que a igreja de Éfeso havia sido fundada, possivelmente por Priscila e Áquila (At 18.18-26), o apóstolo João se muda para lá e se torna o pastor dos Efésios, em meados do ano 90 d.C.. Agora, “na segunda geração de crentes, Jesus envia uma carta à igreja, mostrando que ela permanecia fiel na doutrina, mas já havia se esfriado em seu amor”.6

c) O poder de Cristo na sua igreja (vs.1b)

O verbo conservar διατήρηση (kratein), no grego, “sinaliza que Jesus tem poder e autoridade para guardar seus servos. Todo o seu povo está em sua mão, a fim de que nenhum dano ocorra a qualquer um deles fora da sua vontade”.7 Cristo não preserva somente as sete estrelas, que representam os presbíteros das sete igrejas da Ásia, mas, também, toda a igreja. Jesus tem a sua igreja em suas mãos, que indica poder para agir e governar (1.16). Não é uma instituição denominacional visível que está na mão de Cristo; antes, a sua igreja invisível, que é composta por cada eleito individualmente espalhado por todo o mundo que se reúne como “igreja local/institucional” para cultuá-lo. Esta é a igreja que Cristo protege.

William Barclay diz que a nossa segurança e nossa própria vida depende de estarmos sustentados por Jesus. Quando a igreja se submete ao controle de Cristo, sua doutrina e sua vida deixou de correr perigo.8

João 10.28-29 – Dou-lhes a vida eterna, e jamais perecerão (perder a salvação); e ninguém as arrancará da minha mão. Meu Pai, que as deu para mim (as ovelhas), é maior do que todos; e ninguém poder arrancá-las da mão de meu Pai. (Almeida Século 21)

 

*Não existiam somente sete igrejas na Ásia menor, isto é, em cada cidade mencionada não tinha uma congregação apenas, mas sim várias delas espalhadas por cada cidade. Simplesmente o número sete aqui é um simbolismo, e descreve a totalidade das igrejas.

 

d) A presença de Cristo na sua igreja (vs.1b)

Cristo não somente tem poder sobre a sua igreja para conservá-la em todos os aspectos, mas também está presente nela (Lv 26.12; Dt 23.14; 1.12-13). Os sete candeeiros de ouro, descritos por João, eram candeeiros portáteis que sustentavam lâmpadas de óleo (Zc 4.2). Cada candeeiro representa uma igreja (1.20), da qual a luz da vida que é Cristo resplandece. Na Escritura, o número sete indica perfeição.

Os sete candeeiros aqui denotam a igreja de Cristo num todo, isto é, “são os membros das igrejas sobre quem os olhos de Jesus repousam incessantemente”.9 Dessarte, Jesus fala com autoridade para com o presbítero da igreja em Éfeso e espera que ele desempenhe de maneira logre o seu papel como um bom ministro do Senhor. Era como se Jesus dissesse: Ao pastor líder da igreja em Éfeso: Estas são as palavras daquele que tem a sua igreja em seu poder e que está presente no meio dos seus.

  1. Um catálogo de elogios (2.2-3,6)

a) Fidelidade no serviço a Deus (vs.2,6)

Jesus elogia aos efésios por se manterem firmes e fieis no serviço cristão com três substantivos: Obras, labor e perseverança. Jesus declara categoricamente: Conheço as tuas obras, que ressalta a sua onisciência [atributo incomunicável] em relação ao conhecimento perscrutador de todas as coisas (Sl 139.1-4).

“O uso do singular significa que o presbítero a quem Jesus se dirige é responsável pelo bem estar espiritual da igreja. Mas também este singular fala a cada membro individualmente”.10 O substantivo obras é bem vasto em seu significado, tendo um duplo sentido. Refere-se tanto as boas atitudes quanto as más atitudes. Entretanto, baseado no contexto, a ênfase é centrada mais no lado positivo, ou seja, nas boas obras e no exímio serviço que os efésios prestavam a Cristo.

Champlin escreve:

As obras que Jesus conhece representam as condições espirituais em geral da igreja e não apenas aquilo que chamamos de serviço ativo. A palavra obra neste caso indica o caráter geral, a natureza da pessoa que age, mas também aquilo que ela faz. Esta expressão equivale ao termo veterotestamentário temor do Senhor, que é usado para exprimir as condições espirituais em geral daquele que professava tentar agradar a Deus, reconhecendo seu senhorio”.11

Portanto, as obras em geral mencionadas por Jesus são compostas pelo labor εργασία (kopos), que indica “trabalho árduo até a exaustão”;12 pela perseverança  επιμονή (Hupomone), que denota “resistência, permanência; significa firmeza e constância sob condições adversas”,13 isto é, “resistência nesse labor (trabalho), sob as perseguições”.14

APLICAÇÃO PRÁTICA

Hernandes Dias Lopes escreve:

A igreja de Éfeso não era apenas teórica, ela agia. Havia labor, trabalho intenso. Os crentes eram engajados e não meramente expectadores. A congregação se envolvia, não era apenas um auditório. A igreja não vivia apenas intra muros. Não se deleitava apenas em si mesma. Por meio dela o evangelho espalhou-se por toda a Ásia Menor. E Jesus pode dizer o mesmo ao nosso respeito? Temos sido uma igreja operosa? Temos sido cristãos frutíferos? Ou apenas temos sido um membro dinâmico no corpo de Cristo”?15

 

* BARCLAY salienta que o substantivo kopós descreve o trabalho que nos faz suar, o trabalho duro, que nos deixa exaustos; é a classe de trabalho que demanda de nós toda nossa reserva de energia e toda nossa concentração mental. Ele também descreve que a palavra grega Hupomone, traduzida por perseverança, é a coragem que aceita os sofrimentos e as dificuldades, a luta e a derrota, mas é capaz de sair sempre vitoriosa. Em qualquer situação, é a virtude daquele que sabe finalmente alcançar a graça e a glória (Apocalipse, pág 72-73).

 

b) Fidelidade na doutrina (vs.2,6)

Esta é mais uma qualidade que compreendia o conjunto de excelentes obras da igreja de Éfeso. A igreja estava enfrentando oposição de homens maus e dos falsos apóstolos, que se auto intitulavam apóstolos de Cristo, mas que estavam ensinando heresias perniciosas.

A igreja rejeitou esse grupo de homens intitulados como homens maus, os quais pervertiam o evangelho de Cristo. Eles não eram um grupo distinto de pessoas além dos falsos apóstolos, mas os próprios falsos apóstolos, mediante o contexto do versículo 6 atesta. No capítulo 2.14-15, os Nicolaítas também são mencionados. Contudo, não é possível saber a verdadeira identidade deles. Provavelmente eram os mesmos falsos apóstolos da igreja de Éfeso que também propagavam o ensino de Balaão, na igreja de Pérgamo.

Tendo em mente a recomendação que Paulo havia feito aos presbíteros da igreja em Éfeso acerca da possibilidade do surgimento de falsos mestres, cujo intuito é enganar e corromper a fé dos cristãos (At 20.29-31), a igreja de Éfeso exercia o discernimento.

Eles sabiam como avaliar homens que reivindicavam liderança espiritual por meio de sua doutrina e comportamento (1Ts 5.20-21; 1Jo 4.1).16 Portanto, os efésios foram intolerantes com a heresia e com a libertinagem que os Nicolaítas queriam propagar na igreja.

APLICAÇÃO PRÁTICA

O neoevangelicalismo tem gerado crentes opostos aos crentes que vemos descritos na Escritura. Crentes fieis e sérios, de todas as idades, desde o jovem até o idoso, como José, Daniel, Priscila e Áquila, Timóteo, sua mãe e sua avó, Lídia, entre outros. Os crentes de hoje não são como os Bereianos (At 17.11), que eram estudantes assíduos da Palavra de Deus, que examinavam meticulosamente se o que era pregado estava baseado ou não na Escritura, nem como os crentes de Éfeso, fiéis à doutrina.

Estamos vivendo uma geração de analfabetos bíblicos. Crentes ingênuos, ávidos por experiências místicas, como sonhos, visões, revelações, etc… Crentes interessados somente em novidades gospel e ensandecidos por milagres e bênçãos materiais. Há indolência mental e pouco interesse na Palavra de Deus.

 

* Os Nicolaítas significam (destruidores do povo) pregavam uma nova versão do Cristianismo. Eles pregavam um evangelho sem exigências, liberal, sem proibições. Eles queriam gozar o melhor da igreja e o melhor do mundo. Eles incentivavam os crentes a comer comidas sacrificadas aos ídolos. Eles ensinavam que o sexo antes e fora do casamento não era pecado. Eles acabavam estimulando a imoralidade. Mas a igreja de Éfeso não tolerou a sua heresia e odiou as suas obras  (Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 21).

* Sobre a possível identidade dos Nicolaítas, temos alguns estudiosos que associam essa seita a Nicolau, prosélito de Antioquia, um dos sete discípulos da igreja de Jerusalém (Atos 6.5). Outros, porém, acham que era uma seita gnóstica conhecida por Os Nicolaítas. Outra posição diz que o Nicolau em foco foi um personagem histórico, que residia em Éfeso ou naquela área em geral, embora não deva ser identificado com o homem do mesmo nome, que de Jerusalém.

E, por fim, existe aqueles que supõem que não devemos imaginar que Nicolau fosse o nome de alguma pessoa real e viva, mas que tudo não passa de um titulo de dominador do povo ou destruidor do povo escolhido para representar a heresia que havia em Éfeso e que ameaçava à igreja cristã dali. Até mesmo nesse caso, é quase certo que alguma forma de gnosticismo esteja sob consideração. (Champlin. Enciclopédia da Bíblia de Teologia e Filosofia, vol 4, pág 498).

 

c) Fidelidade em meio ao sofrimento (vs.3)

Após elogiar os Efésios pela sua fidelidade no serviço e na sã doutrina, Jesus, agora, os elogia pela sua perseverança em resistir aos sofrimentos pelo seu nome e por manterem-se firmes, sem desanimar.

Ser crente em Éfeso não era popular como hoje é no Brasil. Lá ficava um dos maiores centros do culto ao imperador. Muitos crentes estavam sendo perseguidos e até mortos por não se dobrarem diante de César. Outros estavam sendo perseguidos por não adorar a grande Diana dos Efésios. Outros, ainda, estavam sendo seduzidos a cair nos falsos ensinos dos falsos apóstolos. Mas os crentes estavam prontos a enfrentar todas as provas por causa do Nome de Jesus.17

A expressão não te deixaste esmorecer κουραστεί (kopos), a mesma palavra usada no versículo 2, indica labor ou trabalho. Porém, aqui, o sentido vai mais além, sintetizando o labor ou o trabalho até a exaustão, “o que levaria qualquer pessoa a desistir do evangelho”.18

Indelevelmente, os efésios não se cansaram em meio às perseguições e tribulações que os assolavam, que tentavam fazê-los retroceder e desistir; pelo contrário, eles continuavam perseverantes no caminho da fé. Kistemaker observa:

Os crentes de Éfeso eram zelosos do nome de Jesus e eram incansáveis em promover sua honra. Em oposição ao moto: César é o Senhor, ousadamente confessavam que Jesus é o Senhor. Ao honrarem o nome de Cristo e prontamente suportarem perseguição e dificuldades, os efésios demonstraram que não chegaram à exaustão em sua vida espiritual.19

APLICAÇÃO PRÁTICA

Hernandes Dias Lopes ressalta:

A igreja atual está perdendo a capacidade de sofrer pelo evangelho. A igreja hoje prefere ser reconhecida pelo mundo do que ser conhecida no céu. Perdeu a capacidade de denunciar o pecado. Esquemas de corrupção já estão se infiltrando dentro das igrejas. Já temos igrejas empresas. A igreja está se transformando em negócio familiar. O púlpito está se transformando num balcão, o evangelho num produto e os crentes em consumidores. Pastores com ares de super espirituais já não aceitam ser questionados. Estão acima do bem e do mal. Estão acima dos outros e até da verdade. Consideram-se os “ungidos”. Dizem ouvir a voz direta de Deus. Nem precisam mais das Escrituras. E o povo lhes segue cegamente para a sua própria destruição.20

  1. Uma severa avaliação (2.4-5)

Jesus, desta vez, passa dos elogios para uma íntima avaliação. Essa avaliação sondadora é baseada em quatro imperativos. Senão vejamos:

a) Uma singela repreensão (vs.4)

Após avaliar os efésios, Jesus os repreende enfaticamente por terem abandonado o primeiro amor. “A luta pela ortodoxia, o intenso trabalho e as perseguições levaram a igreja à aridez”.21 Michael Wilcock salienta que a busca constante pela preservação da verdade levou a igreja em Éfeso a perder o amor, qualidade sem a qual todas as outras não têm sentido (vs.2-3,6).22

O primeiro amor não são as emoções fortes que nos faziam sentir a presença de Deus no inicio da fé, pois não se pode esperar que elas permaneçam em todo o tempo. O primeiro amor é o zelo por Deus que tem de ser renovado dia após dia pela convicção de pecados, pelo arrependimento e pela constante consagração.

O que os efésios haviam abandonado era esse intenso e fervoroso amor que nos faz amar e estarmos sempre na presença de Deus, usufruindo da alegria de uma comunhão profunda com Ele através da oração, da comunhão com os irmãos e dos louvores (Sl 16.11b).

Adolph Pohl diz que a igreja de Éfeso havia abandonado o primeiro amor não como um ato de rejeição, e sim de esquecimento. Como se empenhavam com disposição pelo presente e pelo futuro (vs.2-3), assim sofriam de um esquecimento perigoso do seu tempo inicial e originário.23

Simon Kistemaker expande a questão a lume:

Quando Jesus diz que os Efésios haviam perdido o seu primeiro amor, ele não quer dizer que eles vivam e agiam sem sentir amor por Deus ou pelo seu próximo. O adjetivo primeiro enfatiza que a igreja em que Jesus se dirigiu não mais consistia de crentes da primeira geração, mas de cristãos da segunda e terceira geração. Tais pessoas eram destituídas do entusiasmo demonstrado por seus pais e avós. Eles não mais agiam como propagadores da fé cristã, mas apenas como zeladores e guardiões.

Em contrapartida, a primeira geração dos crentes fizeram um extraordinário esforço para que em Éfeso a palavra do Senhor se difundisse amplamente e crescesse em poder (At 19.20). Nos últimos anos, Paulo escreveu uma carta e os elogiou por sua fé no Senhor Jesus e seu amor por seus irmãos (Ef 1.15). Os filhos e netos dessas pessoas se opunham a heresia e demonstravam persistência no preenchimento das necessidades da igreja, porém seu entusiasmo pelo Senhor era muito pouco.24

APLICAÇÃO PRÁTICA

Assim como os efésios, nós podemos perder o amor por Deus quando o trocamos pelo trabalho, pelo zelo doutrinário e quando denunciamos hereges e heresias. É possível trabalhar diligentemente para Deus, perseverar em meio ao sofrimento, glorificando a Cristo, ser um profundo conhecedor e exímio defensor do Evangelho sem amor por Deus.

 

* Existem pelo menos 3 linhas de interpretação sobre o possível significado deste amor que os Efésios haviam perdido. 1) O amor por Cristo; 2) o amor pelos irmãos; 3) o amor pelas pessoas em geral. Ao meu entender, a melhor interpretação acerca do significado do amor perdido pelos Efésios, e que não causaria problemas hermenêuticos, seria o amor por Cristo (veja Mt 22.37-40).

 

b) Um alerta solene (vs.5a)

Agora, os efésios são alertados por Cristo a relembrar-se de sua queda. A igreja não deveria relembrar em qual situação ou em que pecado caiu, mas de onde caiu, ou seja, de qual posição havia caído.

A igreja deveria refletir e trazer a memória os tempos passados, quando a devoção por Cristo de seus antepassados e familiares há 40 anos era intensa e fervorosa, e com isso fazerem uma comparação com o seu estado espiritual presente, reconhecendo sua queda. A perda do primeiro amor é considerada por Jesus uma queda.

 

* O verbo caiu está no pretérito perfeito, assinalando que se passou algum tempo desde que começou o declínio da igreja de Éfeso.

 

c) Uma ordem imediata (vs.5b)

O termo arrepende-te, no grego μετανοώ (metanoeo), significa “mudar de mente, pensar diferente”.25 A ordem para arrepender-se está no tempo aoristo, que sublinha uma ação única que está para terminar de uma vez por todas.26

Jesus diz com esta ordem que os efésios deveriam se arrepender imediatamente e sinceramente de sua lúgubre condição espiritual. Esse arrependimento deveria consistir no retorno da prática das mesmas obras que os seus antecessores praticavam no início da igreja.

Essas obras não são classificadas como novas obras, antes, são as mesmas obras que já estavam sendo praticadas pelos efésios, como zelo no serviço cristão, pela sã doutrina e a perseverança em meio ao sofrimento. Porém, essas obras deveriam ser motivadas pelo ardente amor por Cristo, e não como uma mera obrigação (Rm 12.11).

APLICAÇÃO PRÁTICA

Arrependimento não é emoção, é decisão. É atitude. Não precisa existir choro, basta decisão. O Filho pródigo não só se lembrou da Casa do Pai, mas voltou para a Casa do Pai. Lembrança sem arrependimento é remorso. Essa foi a diferença entre Pedro e Judas. Arrepender é mudar a mente, é mudar a direção, é voltar-se para Deus.26

d) Uma grave ameaça (vs.5c)

Se os efésios falhassem em não colocar em prática tudo o que Jesus havia lhes ordenado, isso culminaria numa drástica consequência, a saber, a remoção do candeeiro. Esse fato faz alusão a Jesus executar o seu juízo, riscando definitivamente do mapa a igreja de Éfeso; seria o fim da existência desta igreja (1Pe 4.17).

Contudo, a igreja de Éfeso deixou de existir. A cidade de Éfeso deixou também de existir.27 Este acabou sendo o fim de Éfeso: seu candeeiro foi removido. A cidade nunca mais reconquistou seu primeiro amor. Os mongóis, (um exercito de caçadores e rebanhistas guerreiros) destruíram-na em 1403.28 Hoje, só existem ruínas e a lembrança de uma igreja que perdeu o amor por Deus.29

 

* Uma década após João haver escrito o apocalipse, Inácio escreveu uma carta à igreja de Éfeso, na qual ele enaltece os cristãos locais por sua perseverança e sua resistência aos enganos. Ele nota que algumas pessoas da Síria se transferiram para Éfeso com ensinos nocivos, porém os Efésios se recusaram a dar-lhes ouvidos. Ele os elogia por serem de uma só mente com os apóstolos no poder de Jesus Cristo. (Simon Kistemaker citando Inácio. Efésios 3.1; 6.2; 8.1; 9.1; 11.2).

 

CONCLUSÃO

  1. Uma promessa de Cristo aos vencedores (2.7)

a) Um chamado a obediência (vs.7a)

Depois dos elogios, da avaliação critica e da exortação, Jesus agora conclui sua mensagem a igreja de Éfeso convocando-os os a aplicarem todo o conteúdo descrito nesta carta na vida prática e mostrando o resultado doravante a essa aplicação.

A primeira expressão, quem tem ouvidos para ouvir, denota a capacidade de uma pessoa ouvir e uma disposição acompanhada de dar ouvidos. A segunda expressão, ouça o que o Espírito, é uma ordem para ouvir atentamente e de maneira obediente às palavras de Jesus ditas por meio do Espírito.30

A última expressão, diz as igrejas, significa que a mensagem desta carta não foi restrita somente a igreja de Éfeso, mas foi destinada e se aplicava as outras igrejas das outras cidades da Ásia menor e também se aplica a igreja de todas as épocas.

 

* A expressão quem tem ouvidos, ouça, foi usada muitas vezes por Jesus durante ser ministério terreno (Mt 11.15; 13.9, 43; Mc 4.9,23; Lc 8.8;14.35; ver também Ap 13.9). Aqui uma versão extensa aparece com as palavras o que o Espírito diz às igrejas, ocorrendo em cada uma das 7 cartas (2.7, 11, 17, 29; 3.6, 13, 22).

 

b) O resultado da obediência (vs.7b)

Através da resposta em aplicar a lista dos imperativos apresentados por Jesus na vida prática, a pessoa é considerada por ele como vencedor. E como resultado disso, o vencedor terá direito a se alimentar da árvore da vida que está no paraíso de Deus.

O vencedor aqui é o cristão sincero que permaneceu fiel, sendo zeloso no serviço a Deus, zeloso pela sã doutrina; é aquele que se opôs aos falsos mestres sendo perseverante no sofrimento, glorificando o nome de Jesus (vs.2-3).

Todavia, essas exigências não são a condição para que alguém possa ser salvo. Pelo contrário, observar essas exigências demostram o genuíno caráter do cristão como vencedor (Tg 2.14-26). Em outras palavras, o cristão não obedece as palavras de Jesus para ser salvo, mas é salvo para obedecer as palavras de Jesus, e por isso obedece (Ef 2.10).

No grego, o termo paraíso παράδεισος (paradeisos), traz a ideia de um jardim fechado. Essa palavra descreve também a vida mais que abençoada que os verdadeiros cristãos terão no novo céu e na nova terra, onde não haverá mais choro, dor, angustia e sofrimento; haverá, sim, uma alegria indizível, paz e uma doce comunhão inefável com os irmãos e com Deus em Cristo Jesus para sempre.

 

 

NOTAS:

  1. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 20.
  2. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 151.
  3. James Strong. Dicionário do Novo Testamento Grego, pág 2029.
  4. Rubens Szczerbacki. Revelando os Mistérios do Apocalipse, pág 45.
  5. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 20.
  6. Ibid.
  7. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 151.
  8. William barclay. Apocalipse, pág 71.
  9. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 151.
  10. Ibid, pág 152.
  11. Russel Norman Champlin. Apocalipse, pág 387.
  12. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Linguística do Novo Testamento Grego, pág 607.
  13. Rubens Szczerbacki. Revelando os Mistérios do Apocalipse, pág 47.
  14. Russel Norman Champlin. Apocalipse, pág  387.
  15. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 22.
  16. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1780.
  17. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 22.
  18. Rubens Szczerbacki. Revelando os Mistérios do Apocalipse, pág 48.
  19. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 154-155.
  20. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 22.
  21. Ibid.
  22. Michael Wilcock. A mensagem de Apocalipse, pág 18.
  23. Adolph Pohl. Comentário Esperança, Apocalipse, pág 57.
  24. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 155-156.
  25. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave Linguística do Novo Testamento Grego, pág 607.
  26. Simon Kistemaker. Apocalipse, pág 156.
  27. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 24
  28. Ibid.
  29. Rubens Szczerbacki. Revelando os Mistérios do Apocalipse, pág 49.
  30. Hernandes Dias Lopes. Apocalipse, pág 24.

 

 

Autor: Leonardo Dâmaso

Divulgação: Reformados 21

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