A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (1/2)

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Estou certo de que muito já se comentou e analisou acerca da relação quase simbiótica entre o movimento pentecostal e sua cria teratológica denominada neopentecostalismo. Com efeito, há textos excelentes que versam magistralmente sobre essa temática; por exemplo, O gnosticismo e os pentecostais, de Michael Horton, e O pentecostalismo e seus danos à Igreja, do Pr. Marcos Granconato, de modo que quase se torna desnecessária nossa presente tarefa de radiografar a presença viral do gnosticismo no contexto eclesiástico brasileiro.

A busca cada vez mais ávida por experiências extáticas, transes, teofanias, arcanos e mistérios tornou-se efetivamente a chave hermenêutica para se compreender a caoticidade de alguns segmentos carismáticos – e, de fato, seríamos intelectualmente desonestos caso não afirmássemos que não poucas linhas dentro do pentecostalismo têm realizado um importante trabalho evangelístico, acompanhado de uma capacitação ministerial mais profunda e de uma liturgia mais ordenada. Todavia, o que ainda infelizmente impera é a exacerbação mística, a catarse emocional e a tentativa de ressignificar a “liberdade do Espírito” (Gl 5:1), transformando-a em desordem carnal. Conforme já disse John McArthur, em seu livro Caos carismático, é possível, por vezes, atribuir a certos grupos pentecostais a alcunha de “neomontanistas” – gnósticos que dualizam os cristãos em duas categorias, espirituais (pneumáticos) e carnais (sárquicos), conforme era costume entre os coríntios, e que reivindicam uma suposta superioridade espiritual mediante um conhecimento (gnosis) exclusivo (na maioria das vezes o domínio da “língua dos anjos”).

No entanto, a gnose não é simplesmente uma heresia deslocada, facilmente erradicável e diagnosticável. Pelo contrário, já nos dizia Charles Hodge que a história da igreja é a constante luta entre a gnose e o que podemos chamar anacronicamente de “calvinismo”, ou dito de outro modo, o eterno embate entre a autonomia e autosoteria humana e heteronomia e heterosoteria provenientes de Deus. Desse modo, a gnose sempre ressurgiu ao longo da igreja, sempre reerguendo-se após ter sido mortalmente ferida; basta, pois, contemplar panoramicamente a história para se deparar com os já citados montanistas, os cátaros ou albigenses, a Cabala no século XII em Provença, e, mais hodiernamente, as modernas ideologias, especialmente o marxismo. Ora, a afirmação de que modernas ideologias e cosmovisões seculares que deliberadamente buscaram esvair os princípios religiosos são, na verdade, movimentos gnósticos chocam, num primeiro momento, a sensibilidade e a racionalidade do homem atual. Entretanto, como já vários cientistas políticos analisaram, as ideologias, em especial os movimentos revolucionários, nada mais são do que heresias gnósticas com um fundo religioso mascarado.

Eric Voegelin dedicou grande parte de sua obra à análise dos elementos ordenadores da História e da sociedade, chegando, por fim, à conclusão de que a “ordem da história (nome inclusive de sua magnífica pentalogia) é a história da ordem”, isto é, a tentativa do homem de alcançar a harmonia entre quatro princípios: Deus, cosmos, homem e civilização. Nesse sentido, Voegelin afirma que a escatologia proposta pelos movimentos revolucionários nada mais é do que uma “imanentização do eschaton”, ou seja, uma tentativa de “terrestralizar” a consumação final cristã, uma busca por criar, aqui e agora, os novos céus e nova terra. Portanto, os movimentos revolucionários são apenas a versão atual da antiga torre de Babel, como já disse Dietrich von Hildebrand em sua obra The New Tower of Babel: modern man’s flight from God [A Nova Torre de Babel: o homem moderno fugindo de Deus]:

O emblema da presente crise é justamente a tentativa por parte do homem de se libertar de sua condição de criatura, de negar sua situação metafísica e de se desembaraçar de todos os laços que o ligam a algo que é maior do que ele. Ora, o homem moderno busca construir uma nova Torre de Babel [Tradução nossa]

As ideologias revolucionárias negam, portanto, toda forma de transcendência, mutilando, assim, a natureza espiritual do homem. Entretanto, como já disse Herman Dooyweerd – seguindo o pensamento de Calvino, o homem é um ser congenitamente religioso; a Queda não eliminou o sensus divinitatis (o senso da divindade) e a semen religionis (a semente da religião), antes, a obscureceu, corrompendo-a a ponto de transformá-la num impulso idolátrico. Desse modo, as modernas ideologias não são antirreligiosas (embora a maioria seja anticristã), mas, sim, religiões distorcidas, idólatras e que, acima de tudo, depravam a Revelação.

Destarte, todas as ideologias invariavelmente usurpam símbolos transcendentais e escatológicos cristãos para, em seguida, imanentizá-los. Ora, a escatologia marxista, sob o governo de um proletariado abstrato, na qual todas as desigualdades econômicas e sociais desaparecerão – ao mesmo tempo em que todas as potencialidades humanas aflorarão plenamente (nos dizeres de Marx e Engels, um indivíduo pode caçar pela manhã, pescar pela tarde e fazer crítica literária à noite, sem, no entanto, ser pescador, caçador ou crítico); tal escatologia configura-se como uma versão imanentizada da nova terra. Ou podemos citar ainda a ideia sustentada por alguns vegetarianos radicais, segundo a qual a raça humana eventualmente deixará de consumir carne, adotando uma dieta essencialmente herbívora; tal concepção nada mais é do que uma secularização, um esvaziamento simbólico da descrição feita por Isaías a respeito do novo estado inaugurado pelo Messias: “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará” (Is 11:6).

Portanto, não há neutralidade neste ponto: é impossível ao homem escapar de sua condição inerentemente religiosa; as ideologias se sustentam sobre um fundo inegavelmente religioso; e tal constatação parte inclusive de ateus confessos, como John Gray – em seu livro Missa Negra: Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias. Assim, a gnose é um elemento muito mais sutil do que primeiramente pode se pensar, até porque não se trata de um ponto isolado na mentalidade secular, mas, sim, uma cosmovisão integral, um modo de contemplar e interpretar a realidade. Nas palavras de David Koyzis, em seu livro Visões e ilusões políticas: uma análise & crítica cristã das ideologias contemporâneas: “[…] as diversas ideologias se baseiam numa visão gnóstica da realidade, atribuindo a origem do mal a algum elemento da criação de Deus e buscando a redenção num outro aspecto da criação” (p. 82).

Em suma, a gnose é uma espécie de inversão da ordem da criação, é a rejeição absoluta da estrutura da realidade tal como criada por Deus. Semelhantemente ao grito de Mefistófeles, no Fausto de Goethe, o gnóstico cria para si mesmo uma espécie de realidade postiça, com uma estrutura engendrada segundo suas próprias preferências, e não segundo as leis eternas de Deus:

       O Gênio sou que sempre nega!

       E com razão; tudo o que vem a ser

       É digno só de perecer;

       Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais.

       Por isso, tudo a que chamais

       De destruição, pecado, o mal,

       Meu elemento é integral (GOETHE, Fausto, 2010, p.139, Editora 34).

Porém, alguém pode presentemente indagar-se acerca da relação entre ideologia, pentecostalismo e gnose, bem como a razão desse périplo acima nas várias teorias religiosas e políticas. Ora, nesse momento adentramos num domínio já vislumbrado por alguns, comentado por poucos e raramente criticado, a saber, a presença de  ideologias marxistas dentro de igrejas históricas e formalmente reformadas. Todos são prestos em criticar a gnose descarada nos cultos e práticas pentecostais, mas muito ciosos em apontar os famosos “cristãos esquerdistas” e pastores marxistas dentro das Presbiterianas, Batistas e igrejas reformadas independentes.

Com efeito, ao passo que Roma tem sido assolada pela chamada Teologia da Libertação, nós, protestantes, dado que Deus é hábil para desenvolver cruzes para seus seguidores (A.W. Tozer), somos açoitados pela Teologia da Missão Integral. No entanto, esta corrente é deveras popular somente nos meios teológicos acadêmicos, de forma que, na sua vida prática, nossa eclesiologia se vê afligida por outro flagelo, dissimulado sobre uma máscara de neocalvinismo de Kuyper, a saber, a execrável “liturgia aberta” (assim denominada pelos seus “teóricos”) organicamente unida ao não menos nefando “louvor contemporâneo” (epíteto para canções de teor massivamente sentimentalista emolduradas por melodias homogêneas e simplórias).

Em outras palavras, já é habitual participarmos de cultos presbiterianos e batistas que são regidos não mais por um princípio regulador, mas pela supremacia do sentimentalismo barato; mas não apenas isso – argumentando estarem pondo em prática os princípios de redenção da cultura e graça comum propostos por Kuyper, Bavinck e mais recentemente Richard Mouw, alguns pastores inserem em seus cultos e comunidades versões “samba” ou “reggae” de hinos tradicionais, afirmando que, mediante a redenção realizada por Cristo, até mesmo esses ritmos populares se tornam pertinentes ao culto. Ora, não é nossa intenção presentemente discutir sobre a neutralidade ou não dos ritmos musicais (Michael Horton já tratou disso no seu artigo “Is style neutral?” [O estilo musical é neutro?]), mas sim, analisar se esse era efetivamente o pensamento dos neocalvinistas.

Na verdade, basta uma análise superficial para notar que a aceitação indiscriminada de toda sorte de ritmos sob o pretexto de cumprimento do mandato cultural soa mais como Gramsci do que Kuyper. O receio de postular um parâmetro objetivo do belo e consequentemente uma hierarquia estética tem levado não somente os acadêmicos incrédulos a aceitarem como arte todo tipo de experimentalismo e obras disformes, mas também aos pastores e líderes cristãos a admitirem em suas congregações o relativismo estético marxista, que, como tudo o mais, repudia quaisquer padrões objetivos e imutáveis que possam determinar ou avaliar nosso comportamento ou feitos. E nesse sentido, portanto, são gnósticos ou, no mínimo, intelectualmente desonestos.

Kuyper, em seu livro Wisdom and Wonder: common grace in Science & Art, repudia qualquer forma de relativismo estético; e a redenção da cultura e da arte diz respeito, antes de tudo, à alta cultura (termo cada vez mais raro). Com isso não se pretende dizer que se descarta de antemão qualquer participação ou produção popular, afinal, era notório o cuidado e o empenho de Kuyper em trazer as camadas populares (kleine luyden, a “gente pequena”) a uma maior participação política e social. Na verdade, como o próprio teólogo afirmou, para Deus devemos dedicar os melhores frutos de nosso trabalho, incluindo, pois, as mais sublimes produções estéticas. Ora, comparar Hillsong United ou “corinhos de fogo” com os Salmos metrificados de Goudimel ou as composições de Isaac Watts é, no mínimo, sinal de uma completa obnubilação do senso estético – isto para não dizer que se trata de uma depravação do gosto. A liturgia de igrejas que se dizem reformadas deve necessariamente seguir a linha histórica, pois qualquer tentativa de rompê-la, refazendo-a inteiramente, constitui-se antes como ato revolucionário (e, portanto, gnóstico) do que inovador. Nas palavras do teólogo holandês:

Na igreja de Cristo, Ele é o Rei, e é necessário que tudo O sirva. Um organista tocando seu instrumento apenas para si mesmo não compreende, por conta disso, seu chamado; e o cantor que não compõe suas letras segundo a linha histórica da tradição cultual não se santifica, mas peca, caso o som de sua voz sirva apenas para estimulá-lo, e caso, ao conduzir o canto, não se entregue completamente à adoração de seu Senhor e Rei.

Nada é mais irrisório do que coristas cantando como se fossem pássaros, e não pessoas; ou músicos que não sentem absolutamente nada daquilo que estão cantando, os quais estão simplesmente perdidos nas notas musicais. Mas, contanto que essa espécie de performance artística seja evitada, a arte da música e da canção permanece indispensável para nossa adoração. Em Genebra, Calvino convergiu todo empenho para que o canto congregacional soasse cerimonioso, natural, animado e belo.

Todos que são suficientemente humildes hão de admitir com franqueza que ninguém, ao se assentar no santuário, possui o fervor apropriado para a adoração. Nesse momento, a arte da música e do canto deve ser o meio para içar a alma do adorador para fora do ordinário e do mecânico em direção à paixão e atividade. Canto e melodia devem falar ao coração humano na plenitude do culto de uma forma que o estimule à adoração. Tal objetivo não será atingindo caso falte ao canto o ardor santo, e à música, uma vivacidade mais imponente [Tradução nossa]

Naturalmente, alguns argumentarão que há necessidade de adaptarmos a liturgia à cultura ou que é imperativo atualizá-la, a fim de não nos transformamos em adoradores anacrônicos. Se Deus assim o permitir, trataremos futuramente dessas e outras argumentações.

Que Deus nos livre, pois, da gnose em suas mais diversas formas.

Soli Deo Gloria

 

A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (2/2)

 

Autor: Fabrício Tavares

Divulgação: Reformados 21

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