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Salmo 69:9 – Pois o zelo da tua casa me consumiu, e as injúrias que te ultrajam caem sobre mim. 

Davi consumia-se de tristeza e indignação diante de afrontas à santidade de Deus. Jesus, como narrado em João 2:17, também sentiu o mesmo. Depois de o verem expulsar os mercadores a chicotadas, “seus discípulos se lembraram do que está escrito: O zelo de tua casa me consumirá. Cito duas breves passagens bíblicas que exemplificam fortemente o sentimento de indignação e ira de que deveria ser tomado todo cristão ante a profanação do culto a Deus em tempos atuais.

Sacrilégio e ofensa a Deus tornaram-se corriqueiros em grande parte das igrejas, principalmente nas pentecostais e neopentecostais. Um frenesi irrefreável de auto ajuda e sincretismo as tomou de assalto. A sofreguidão por celebração, entretenimento e êxtase mancham a reverência devida a Deus no culto, e a motivação principal que deveria ser a glória do Senhor dá lugar a uma busca insolente por auxílio terapêutico e material. A contundência dessas práticas não pode ser medida apenas pela influência da cultura, mas pela depravação de homens e mulheres que não foram, de fato, regenerados. Bodes e lobos se completam na tarefa de mergulhar o evangelho numa sinistra roda viva de infâmias e blasfêmias. Nas igrejas que admitem a corrupção idólatra, não são apenas os líderes que corrompem, os liderados também se deixam corromper. A simbiose entre os dois lados da mesma moeda é evidente na conjunção dos interesses egoístas que movem tanto os lobos quanto os bodes. As invencionices insolentes não  reverberariam se não encontrassem intimidade nos corações egocêntricos e interesseiros de muitos dos milhões que frequentam os templos evangélicos.

Brian M. Schwertley, em sua obra Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, é categórico quando afirma que “A ideia de que ao homem é permitido fazer acréscimos no culto autorizado por Deus em Sua Palavra contradiz o expresso ensinamento da Escritura”. A jactância humana maculou o culto bíblico com práticas eivadas de humanismo, com o respaldo do pentecostalismo. No entanto, uma parcela de responsabilidade cabe às igrejas reformadas, porque entre reformados também tem se tornado comum a aceitação de recursos extra bíblicos na adoração e no culto a Deus. Contrariando tal aceitação, as confissões reformadas são um baluarte da defesa calvinista do culto reverente. O próprio Calvino, em A Necessidade de Reformar a Igreja, escreveu:

Então, se se questionar quais são as principais razões por que a religião cristã tem uma duradoura existência entre nós, saber-se-á que as duas seguintes, não são apenas as principais, mas compreendem em si mesmas todas as outras partes e, por conseguinte, toda a substância do cristianismo, a saber: primeiro: o conhecimento do modo pelo qual Deus é devidamente adorado; e segundo, de qual fonte deve-se obter a salvação. Quando essas duas são mantidas fora de perspectiva, embora, possamos nos gloriar no nome de cristão, as nossas profissões de fé serão vazias e vãs.

Outrossim, para além das justas ponderações e ensinamentos de homens tementes a Deus, é importante que consideremos aquilo que tão pertinentemente nos ensina a Bíblia acerca da necessária pureza do culto prestado ao Deus Vivo. Alguns textos são especialmente claros quanto ao zelo divino, pela maneira como Ele quer ser adorado. Senão vejamos: Levítico 1:10; Levítico 22:32; Deuteronômio 4:1-2 Samuel 6:6-12; Isaías 29:13; Jeremias 7:21-24; Jeremias 19:4-5; Mateus 15:1; Mateus 15:9; Colossenses 2: 22-23.

Pois bem, se há em nós a certeza de que não existe outra autoridade espiritual  que não a Bíblia, não deve restar qualquer dúvida que é detestável para Deus cultos inventados por conta própria, mesmo que nascidos da boa intenção de agradá-Lo. Necessariamente, todo culto prestado a Deus, que não seja estritamente bíblico, é idólatra. Calvino, de forma pertinente, afirma nas “Institutas”:

Diante disso, que dirão aqueles fanáticos orgulhosos, que só dão valor a esta iluminação e repudiam a Palavra de Deus, colocando atrevidamente no lugar dela os produtos de seus sonhos e fantasias?

No século XVI, quando se levantou o estandarte da Reforma Protestante, herdeira da inquietude teológica medieval e da ousadia dos que já haviam questionado a heresia romanista, o brado de “Sola Scriptura” e “Tota Scriptura” soou na terra como um eco do brado do próprio Deus, exigindo para si a primazia absoluta. Homens movidos pelo Espírito Santo reivindicaram a verdade, a suficiência e a inerrância da Palavra de Deus sob o custo, muitas vezes, da própria vida. Deus, soberanamente, estava intervindo na história como prerrogativa sua e recolocando no lugar a adoração teocêntrica e bíblica que Lhe é devida, da forma que Lhe apraz e que deve ser segundo a prescrição da Escritura Sagrada. A preocupação com o culto bíblico e solene foi uma das colunas da doutrina dos reformadores, especialmente de João Calvino e das Confissões de Fé reformadas que sumarizam em seu corpo a teologia do movimento.

Calvino diz:

Mas a piedade, para permanecer num firme pedestal, mantém-se dentro de seus próprios limites. De modo semelhante, a mim me parece que a superstição é assim denominada porque, não satisfeita com o modo e a ordem descritas, empilha uma massa inútil de coisas sem sentido.

A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo XXI, artigo primeiro, enfatiza o culto segundo a Escritura Sagrada. Vejamos, pois:

mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e é tão limitado pela sua vontade revelada, que ele não deve ser adorado segundo a imaginação e invenções de homens

O movimento carismático, inaugurado entre o final do século XIX e início do XX, sob o pretexto de aprofundar experiências extáticas com Deus, deslocou novamente, como já havia sido feito pelos romanistas, o centro da verdadeira adoração, enfatizando o papel da terceira Pessoa da trindade em detrimento das outras duas. Não há como negar que, de certa maneira, o pentecostalismo tem dificuldades com a doutrina da Trindade ao sobrepor, na ânsia por experiência extáticas, o Espírito Santo sobre Deus e Cristo Jesus. A fixação quase doentia nas “manifestações” do Santo Espírito, transforma o Espírito em uma entidade solitária e apartada das outras duas Pessoas, acabando por ser, na práxis pentecostal, adorado à parte do Deus Triúno. Abraham Kuyper, teólogo calvinista, em seu livro A Obra do Espírito Santo, escrito ainda numa época em que o pentecostalismo não fazia parte das preocupações dos grandes teólogos e da Igreja, disse:

A necessidade de direção divina nunca é mais profundamente sentida do que quando uma pessoa assume a tarefa de dar instrução sobre a obra do Espírito Santo – o assunto é tão indizivelmente delicado que toca segredos mais íntimos de Deus e os mistérios mais profundos da alma.

Ele só nos lembra daquilo que já sabemos: o cuidado que Deus tem com seu próprio Espírito. Certamente, as práticas pentecostais e neopentecostais realizadas em nome do Espírito Santo não obedecem a este princípio!

Gênesis 1:31 – Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom

O relato de Gênesis não deixa dúvida que toda a criação é boa e existe para glorificar o nome de Deus. Porém, não parece ser assim que pensa o pentecostalismo. Seu viés gnóstico lhe tira a possibilidade de compreender a criação como uma totalidade, onde não há dilema entre o secular e o sagrado, visto que tudo é criação de um Deus amoroso e perfeito. Então, resta-lhe afirmar que algo na criação é intrinsecamente defeituoso, negando, assim, a soberania absoluta do Criador sobre cada evento e centímetro da criação. Tal atitude fracassa em fazer do cristianismo, nos dias atuais uma ferramenta precisa e contundente contra a modernidade relativista e anticristã. Isto é, erguer uma cosmovisão cristã de mundo capaz de opor-se ao humanismo. Abraham Kuyper chama isso de necessidade de opor princípio contra princípio. É dessa maneira que devemos entender o cristianismo, como um sistema de vida, totalmente explicador e fundante da existência.

Mas, o que é cosmovisão? Simplesmente é a maneira como reunimos pressupostos através dos quais avaliamos a realidade e intervimos nela. Existem, então, duas grandes e conflitantes cosmovisões: uma bíblica, que pensa e intervém no mundo sob premissas bíblicas, e outra que o faz sob suposições humanistas. Não há meio termo. O pentecostalismo fracassou em dotar os cristãos de capacidade de pensar e intervir na sociedade a partir de  pressupostos bíblicos. E, dessa maneira, os impede de reivindicar para si uma justa e bíblica forma de operar no mundo. A maioria dos cristãos reduz pobremente seu cristianismo  à vida privada, sem compreender que devemos enxergar o mundo através dos “óculos” propostos pela Bíblia, isto é, através de uma cosmovisão cristã.

Ainda como consequência de sua visão afetada pela gnose, o pentecostalismo tende a enxergar o pecado no homem não como rebeldia diante da lei, como é ensinado em 1 João 3:4 [Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei], mas, como algo inerente a matéria, como se o pecado fosse material e se manifestasse fisicamente em algum momento. O risco dessa visão não é apenas ver algo de ruim na criação, mas descambar  pra uma forma de crença pagã e animista, semelhante as crenças africanas ou indígenas, onde a criatura não só obedece, mas também é  movida por algum espírito que se apossa dela. Não é difícil entender, diante de tudo isso, que a vocação sincrética do pentecostalismo se traduz nos seus ritos e liturgia pouco ortodoxos e na sua doutrina permeada de misticismo humano que desemboca em manifestações pagãs marcadamente antibíblicas!

O movimento carismático ensejou outras implicações. Entre elas, está o entendimento  de que avivamento espiritual significa estar “cheio” do Espírito Santo e que quanto mais manifestações de êxtase são experimentadas no culto público, mais “poder” é conferido ao crente. Uma grave subversão do que deve ser o verdadeiro avivamento, que muito mais que experiências fabricadas e métodos artificiais, é consequência de uma vida de santidade e verdadeiro conhecimento da Palavra de Deus.  Por conseguinte, a característica desordem  do culto carismático e a importância exagerada dada a experiência em lugar do solene conhecimento da Sã Doutrina são aguçadas até o ponto de, em alguns casos, verdadeiras aberrações serem cometidas, absurdos que não só  afrontam a pureza da adoração, mas são motivo de troça e zombaria entre os ímpios. Chega ao ponto de ser satírico e burlesco o que se tem visto nas igrejas ditas “evangélicas” quando se reúnem para “adorar”. Se é ofensivo para nós, homens imperfeitos, quanto mais para o Deus glorioso e santo.

Outra implicação nada abonadora, é a ideia de que estar “cheio” do poder – uma obsessão pentecostal – é resultado do  que chamam de segundo batismo, ou seja, o batismo com o Espírito Santo; uma espécie de segunda bênção que revestiria o crente de poder, cujo sinal seria a glossolalia (aliás, um fenômeno presente em cultos ocultistas e pagãos das mais variadas épocas). Um pequeno esforço de exegese seria suficiente para entendermos que o homem, ao ser regenerado, recebe o Espírito de Deus, que o capacita a observar as ordenanças divinas, como posto em Ezequiel 36: 26, 27:

Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.

Não deveria haver dificuldade em compreender que todo crente, todo homem regenerado, é batizado com o Espírito Santo, o que faz dele uma nova criatura, como bem explicado pelo apóstolo Paulo em 2 Coríntios 5:17: E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. Não há necessidade de um segundo batismo e muito menos de estabelecer duas castas de crentes: os “super crentes” batizados no Espírito e os carnais que ainda “buscam” tal bênção.

No entanto, a pior manifestação do movimento carismático é sua vertente mais “trash”: o neopentecostalismo. Digo, sem receio, que é a forma mais nociva e perniciosa assumida pelo “evangelho” moderno. Esta aberração doutrinária não só carrega os vícios e heresias do pentecostalismo, mas as potencializa. Ao torná-las ainda mais ativas, traz um enorme prejuízo à causa da Igreja. É do neopentecostalismo que se alimenta e se robustece a famigerada Teologia da Prosperidade. Sua ação maligna se impregnou nas igrejas que confessam o neopentecostalismo. Líderes desonestos e abjetos aparecem todos os dias. Estelionatários da fé com seus programas diários na TV enganam milhões em seus cultos marcados pela ganância, desordem, irracionalidade, sincretismo, mistificação e experimentação catártica. Enganam deliberadamente as multidões que, carentes de tudo, procuram desesperadamente a redenção de suas misérias materiais e emocionais num falso deus ensinado por um falso evangelho.  Todavia, é injusto isentar as “ovelhas”, pastoreadas por farsantes, da responsabilidade que também têm na disseminação das heresias que afligem a Igreja. A ganância egoísta  de “ovelhas” sedentas de ganho já foi condenada pelo próprio Jesus, quando Ele  admoestou Mateus 12:38-39:

Então, alguns escribas e fariseus replicaram: Mestre, queremos ver de tua parte algum sinal. Ele, porém, respondeu: Uma geração má e adúltera pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas.

Multidões seguiam Jesus atrás de soluções materiais para suas vidas; uma geração tão corrupta e perversa como a de hoje. Para essa geração perversa, gananciosa e ególatra, liderada por homens da mesma estirpe, está reservado o juízo, porque a ira de Deus se levantará contra toda impiedade e insolência, como está escrito em Judas 15: para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.

Hoje, como antes, multidões continuam se aglomerando em templos suntuosos, participando de cultos falsamente oferecidos a Deus, ouvindo e seguindo falsos profetas e adorando apenas a si mesmas. O engano é patente, e é cada vez mais tangível e escandaloso. Um falso culto é prestado a um falso deus.  O evangelho da verdadeira boa nova é reduzido a um amontoado de suposições humanistas, cujo objetivo é satisfazer os impulsos hedonistas da humanidade caída.

Verdadeiros canalhas se arrogam pastores, apóstolos e patriarcas – alguns não demorarão a chamar a si mesmos de semideuses – mas não passam de rebeldes preparados para perdição, como ensina novamente Judas, em sua carta, ao longo do versículo 10:

Estes, porém, quanto a tudo que não entendem, difamam; e, quanto a tudo o que não compreendem por instinto natural, como brutos sem razão, até nessas coisas se corrompem. Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim e, movidos pela ganância, se precipitaram no erro de Balaão e pereceram na revolta de Corá.

Na verdade, são homens e mulheres insanos e sem temor,  que ousam oferecer ao Deus da Bíblia um fogo estranho. Mergulham na zombaria insolente e na condenação para a qual foram criados. Bodes e lobos são arrastados para própria condenação. Para eles resta apenas o juízo descrito pelo apóstolo em 1 Pedro 2:8: São estes que tropeçam na Palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos.

Entretanto, regozijemo-nos em saber que existem homens e mulheres que também ousam se levantar, a revelia da cultura predominante, para corajosamente bradar: O zelo de tua casa me consumirá! Com certeza, são esses homens e mulheres que carregam, jubilosos, o justo entendimento bíblico acerca do papel do Espírito Santo, explicado assim por João Calvino:

Certamente bem outra deve ser a sobriedade dos filhos de Deus, os quais se sentem privados de toda luz da verdade quando não contam com o Espírito de Deus: não ignoram, porém, que a Palavra é o instrumento pelo qual o Senhor concede aos fiéis a iluminação do seu Espírito. Porque eles não conhecem outro Espírito que não aquele que habitou os apóstolos e que falou por meio deles. E para ouvir  as suas palavras os fiéis são chamados.

 

NOTAS:

  1. Brian M. Schwertley, Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto.
  2. João Calvino, As Institutas.
  3. Confissão de Fé de Westminster.
  4. Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo.
  5. Abraham Kuyper, Calvinismo.
  6. John MacArthur, Fogo Estranho.

 

Autor: Davi Peixoto

Divulgação: Reformados 21

 

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