Share

Efésios 2:1 – Ele vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados.

Antes de mais nada, a depravação total da humanidade é uma doutrina bíblica. O pecado de Adão deformou intensivamente a natureza humana. Não só o homem foi degradado pelo pecado, mas toda a criação. A depravação é intensiva, completa e afeta a humanidade em todos os níveis, como apropriadamente afirma o teólogo calvinista Herman Dooyeweerd:

A queda, a separação fundamental de Deus, consistiu nisto: o coração humano rebelou-se contra sua origem divina; a humanidade imaginou ser algo em virtude de si mesma e, com isso, buscou a Deus dentro da temporalidade. Eis, então, a apostasia contra o Deus verdadeiro revelado no coração da humanidade por meio de sua Palavra.

É pertinente observar que, para Dooyeweerd, o coração é onde reside todo significado religioso da criação de Deus, o que ele chama de ”self completo”. Portanto, não é de modo nenhum errado afirmar que a depravação total reduz o homem à condição de quase animalidade ao embaçar, neste,  a imagem e a semelhança de Deus. Esta verdade é proclamada, sonoramente,  nas incontáveis  vidas destituídas de dignidade e que reduzidas a quase bestialidade vagam perdidas pelo mundo criado. A vida de bilhões se resume a nascer, comer, reproduzir e morrer. A miséria de suas vidas reflete a depravação de suas almas. O coração afastado de Deus perdeu sua condição de “centro supratemporal da existência humana” (Dooyeweerd) e permitiu a apostasia idólatra de inventar deuses temporais e causou, em Adão, a morte espiritual dos que, no mundo, não passam de cadáveres que respiram!

Nada e nem ninguém escapa dessa tragédia. Paulo, em sua carta aos Romanos, no capítulo 3, versículo 23, nos ensina o seguinte: Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Diante de tal verdade, podemos afirmar convictamente que, mesmo os mais afortunados economicamente não escapam da putrefação espiritual causada pelo pecado. O que os distingue é que apenas são envolvidos por um superficial verniz brilhante de sucesso material, fato que os faz pensar que vivem.

Corpos vivos e almas mortas é o homem afligido pela morte espiritual. A falsa impressão de vitalidade trazida pelo pecado é apenas um paliativo, uma mentira sedutora soprada por Satanás nos ouvidos humanos. Por isso, muito se ri, muito se diverte e muito se festeja. Diante da tragédia da morte, o homem “vive”, dá-se em casamento e se regozija diante da putrefação com um orgulhoso senso de imortalidade. Insensível à tragédia e ao juízo que se avizinham, o homem sem Deus ergue, desesperadamente, torres que o permita tocar o céu, mas é sempre em vão. O livro de Gênesis, no capítulo 11.4-8, é exemplar no que se refere às vãs tentativas humanas. Vejamos, pois:

Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra. Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;  e disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro.  Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.

Homens mortos espiritualmente jamais chegarão a Deus por esforço ou vontade própria, mesmo que ergam torres impressionantemente altas. Pelo contrario, seu esforço é sempre vão, e diante da banalidade e ineficácia das tentativas que sempre resultam em idolatria, são entregues pelo próprio Deus à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração…, como afirma o apóstolo Paulo, em Romanos 1:24. Portanto, ser tocado pelo céu é a redenção possível e verdadeira, já que Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus usar sua misericórdia, como novamente Paulo nos ensina em Romanos 9:16.

A idolatria que detém a verdade pela injustiça (Romanos 1:18) é a filha dileta da Queda. Sua prática recorrente na História da humanidade acentuou a cisão do coração humano da Palavra revelada do Deus verdadeiro e único. Ao longo do tempo, o homem  tem buscado soluções para a tensão criada entre ele e o seu Criador. A Busca incessante pelo absoluto, tanto epistemológico, moral ou metafísico, levou gigantes do pensamento humano a inúmeras tentativas de alcançá-lo. Seja com Platão, que o buscou na Pólis ou nos deuses demasiadamente humanos dos gregos, seja em Aristóteles, que o viu na “razão” ou, ainda, nos teólogos escolásticos, que o viam irremediavelmente contrastado com a “natureza”, o absoluto só foi devidamente compreendido na Reforma protestante quando os reformadores, inspirados pelo Espírito, “religaram” o homem a Deus através da simples, mas potente verdade Revelada do Deus que existe e fala. A consequência quase que imediata foi que a transição da idade média para a moderna viu as grandes descobertas científicas e artísticas do período se basearem em certezas bíblicas epistemológicas e morais. Homens da envergadura de Nicolau Copérnico (1473-1543), Johannes Kepler (1571-1630), Galileu Galilei (1564-1642), René Descartes (1596-1650), Isaac Newton (1642-1727), Blaise Pascal (623-1662) e outros gigantes do pensamento humano, sustentaram suas teorias e convicções em suposições cristãs.

Entretanto, a partir do século XVIII, a Revolução Francesa e seus pressupostos sentenciaram o que podemos chamar de início do fim do cristianismo como fundamento civilizatório. Abraham Kuyper chama a teoria/prática implementada pela revolução francesa de “antiteísta”, porque ela proclama como fundamento da certeza e da autoridade civil a soberania popular, e não a soberania de Deus. Francis Schaeffer diz que a revolução francesa substituiu, como absoluto, a Graça pela liberdade e a elegeu, então, como deusa fundamental. Tanto Kuyper como Schaeffer estão cobertos de razão, pois tanto a soberania transferida para o homem como a liberdade sancionada como princípio causaram um grande dano à certeza da soberania divina sobre a criação. No século XIX, já sob a influência das premissas revolucionárias, o cristianismo sofre com a atuação de mais quatro grandes danos à sua estrutura. O primeiro é o crescimento da Teologia Liberal, que declara sob a tutela inicial de Friedrich Schleiermarcher que a bíblia é um livro mitológico e sem autoridade divina.

O segundo vem do marxismo, que embebido de materialismo, reduz toda a criação a uma combinação de embates de forças produtivas e classes sociais, levando ao extremo o pensamento historicista e a dialética de Hegel, baseada em antíteses e não mais em sínteses. O terceiro é o pentecostalismo, não por não ser cristão, mas por fundar-se em uma concepção gnóstica de realidade, desafiando a soberania de Deus ao enxergar algo de inerentemente mal em algum aspecto da criação, transformando o conceito de pecado em algo materialmente palpável; e pior, sonegando a possibilidade de uma cosmovisão bíblica da realidade criada. Finalmente, o quarto dano é causado pelo arminianismo e suas variações pelagiana e semipelagiana. A possibilidade da autonomia moral do homem, sugerida pelo “livre arbítrio”, acaba por levar à autonomia metafísica, isto é, admite que, em algum momento, um evento qualquer do cosmos pode ocorrer neutramente livre de Deus. Assim, para os arminianos, não há um Deus absolutamente soberano, mas homens autônomos dotados de vontade sem causalidade.

No século XX, a articulação de todos os fatores citados acima aprofundou a crise do cristianismo como fundamento civilizatório. Podemos dizer que ele está morrendo, agonizante. Mas ressalto, para não incorrer em blasfêmia, que a agonia não é do Cristo Revelado e nem de suas Verdades absolutas e inefáveis, mas do cristianismo. O cristianismo compreendido como fundamento da civilização está morto para a cultura casual! Sua função de parâmetro epistemológico foi mortalmente abalado pelo relativismo pós-moderno. A contingência miúda da pós-modernidade pretende eliminar a certeza. A relativização absurda da razão matou a coerência e a verdade! A licenciosidade confundida equivocadamente com a “sagrada verdade do outro” é responsável pelo recrudescimento da podridão ética e moral de nosso tempo. A depravação total do homem nunca foi tão palpável, tão tangível!

O certo ao ser identificado com o que dá certo resulta numa sociedade sem qualquer traço de retidão moral. A felicidade como um fim em si mesma, e o prazer como motor dessa felicidade, potencializam sobremaneira o pecado. Diante da corrupção causada pelo relativismo pós-moderno, toda criação cai em um estado de degradação quase absoluto – a cultura, as leis, a política, a economia, o lazer e o conhecimento. A profundidade da ruptura causada pela queda traz consequências amargas e implica em uma arraigada aversão ao Deus Criador, exatamente como Paulo anteviu em 2 Timóteo 3:1-4: Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus.

Morte em vida é o que resta a cadáveres insepultos. Tudo gira em torno de pressupostos humanistas, eivados de sonhos de autonomia e independência, corrompidos pela apostasia e orgulho idólatra. Como nos dias do dilúvio, o homem vive despreocupado, alimentando seu vazio com drogas, sexo, festejos e prazeres. A sensação de que tudo é possível trazida pelo avanço inócuo da tecnologia aumenta a sensação mentirosa e fugaz de eternidade. A vida cheia de promessas vãs e prazeres imediatos traz uma falsa sensação de independência diante do senhorio de Deus. A humanidade vive seu delírio, achando que tem controle sobre a vida, pensando que tudo pode e que tem tudo. Vive sem Jesus. Então, tudo lhe é subtraído, inclusive a vida!

O fim da era cristã, todavia, não significa o fim da Igreja de Cristo! O problema não está no cristianismo, o problema está nos cristãos forjados na empobrecida forja intelectual e espiritual do pentecostalismo e neopentecostalismo, na herética forja da teologia liberal, que insiste em fundir-se com os pressupostos humanistas e antiteístas do marxismo e na débil visão da soberania de Deus contraposta à força da vontade humana, construída pelo “livre arbítrio” arminiano. Incapazes de entender, como diz Kuyper: “se tudo que existe é por causa de Deus, então, segue-se que a criação toda deve dar glória a Deus. O sol, a lua e as estrelas no firmamento, os pássaros no céu, toda a natureza ao nosso redor, mas, acima de tudo, o próprio homem que, como sacerdote, deve fazer convergir para Deus toda a criação e toda vida que se desenvolve nela. Embora o pecado tenha insensibilizado grande parte da criação para a glória de Deus, a exigência e o ideal permanecem imutáveis, que cada criatura deve ser submergida no rio da religião e terminar por colocar-se como uma oferta religiosa sobre o altar do Todo-Poderoso”. A Igreja de Cristo é invencível, nos prometeu o próprio Jesus. Os que Deus elegeu serão alcançados irrevogavelmente, para glória e louvor de seu nome. A confusão de nossos dias não é confusão para Deus; tudo foi preordenado para que seu nome fosse alçado acima de todos os nomes. O Senhor Jesus voltará em poder e glória. Os sinais de sua volta são evidentes. O caos aparente é o perfeito cumprimento de Sua vontade!

 

NOTAS:

  1. Abraham Kuyper, Calvinismo.
  2. Herman Dooyeweerd, Estado e Soberania
  3. Francis Schaeffer, O Deus que se Revela
  4. Site Monergismo

 

Autor: Davi Peixoto

Divulgação: Reformados 21

Reformados 21
Reformados 21
Site de Teologia e Apologética, cujo intuito é evangelizar, discipular, ensinar, combater as heresias e defender a fé cristã.