Quando é errado ser simpático (2/2)

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O mal da falsa religião

Homens e mulheres que não têm a visão de mundo bíblica, em geral, pensam em religião como a expressão mais nobre do caráter humano. A opinião popular no mundo como um todo, de um modo geral, considera a religião como algo inerentemente admirável, honroso e benéfico.

Na realidade, nenhum outro campo das humanidades — filosofia, literatura, artes, ou seja lá o que for — tem a mesma probabilidade de causar mal quanto a religião. Nada é mais capaz de causar tanto mal do que a falsa religião, e quanto mais os falsos mestres tentam esconder-se por trás dos mantos da verdade bíblica, mais eles são, de fato, diabólicos.

No entanto, emissários de Satanás que aparentam ser benignos e amavelmente religiosos são comuns. A história de redenção está repleta deles, e a Bíblia sempre adverte sobre esses falsos mestres — lobos ferozes que se vestem de ovelhas, “falsos apóstolos, obreiros enganosos, fingindo-se apóstolos de Cristo. Isto não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Portanto, não é surpresa que os seus servos finjam que são servos da justiça” (2 Corintios 11:13-15).

Fazendo seu discurso de despedida em Éfeso, o apóstolo Paulo disse aos presbíteros daquela jovem, mas já assediada, igreja: Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos (Atos 20:29-30, ênfase do autor). Ele os estava advertindo de que falsos mestres se levantariam não só dentro da igreja, mas que também chegariam despercebidos na liderança da igreja (cf. Judas 4). Isso, sem dúvida, aconteceu em Éfeso, e aconteceu repetidas vezes em cada etapa da história da igreja. Falsos mestres cobrem-se com vestes de Deus. Eles querem que as pessoas acreditem que representam Deus, que o conhecem, que têm discerni- mento especial da verdade e da sabedoria divinas, mesmo sendo emissários do próprio inferno.

Em 1 Timóteo 4:1-3, Paulo profetizou que a igreja dos últimos dias seria atacada por falsos mestres com uma visão farisaica do ascetismo, a qual usariam como um disfarce para a licenciosidade: O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada e proíbem o casamento e o consumo de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem e conhecem a verdade.

Observe como as Escrituras dizem enfaticamente que os falsos mestres que gostam de usar o disfarce do falso moralismo e esconder-se sob o pretexto da ortodoxia são maus, mensageiros do diabo, mestres de doutrinas diabólicas. Mais uma vez, nada é mais terrivelmente diabólico do que a falsa religião, e somos advertidos, repetida e explicitamente, a não fazermos pouco caso de falsos ensinamentos, uma vez que eles se parecem muito com a verdade.

Nunca os falsos mestres foram mais agressivos do que durante o ministério terreno do Senhor Jesus Cristo. Foi como se todo o inferno investisse com força total contra ele durante aqueles três anos. E, sem dúvida, podemos entender isso. Ao opor-se ao evangelho e tentar frustrar o plano de Deus, Satanás liberou tudo o que tinha contra Jesus Cristo, desde seus esforços diretos para tentar Jesus (Mateus 4:1-11; Lucas 22:40-46) a demônios que o confrontaram enquanto fingiam reverenciá-lo (Marcos 5:1-13) — e tudo o que estivesse entre ambas as coisas, incluindo a infiltração de Judas, o falso discípulo, a quem o próprio Satanás influenciou, possuiu e capacitou para cometer o pior ato de traição (Lucas 22:3).

Mas a investida mais séria e prolongada contra Jesus — e a principal campanha de clara oposição que, finalmente, o perseguiu até a cruz — foi o incessante antagonismo dos fariseus, instigado pelo Sinédrio. Eles, por sua vez, estavam sendo controlados por Satanás. Sem dúvida, estavam cegos para esse fato, mas Satanás os usava como fantoches em sua implacável campanha contra a verdade.

Parece quase impensável que a oposição mais ferrenha a Cristo viesse dos líderes mais respeitados do segmento religioso da sociedade. Mas é verdade. Observe o amplo alcance do ministério terreno de Jesus conforme registrado pelos escritores do evangelho e pergunte: Quem foram os principais agentes de Satanás que tentaram frustrar a obra de Jesus e opor-se aos seus ensinamentos? De onde veio a principal resistência a Cristo? A resposta é óbvia. Não foi do submundo criminoso da cultura nem de sua baixa classe secular. Não foi de excluídos da sociedade — coletores de impostos, pessoas desprezíveis, marginais, prostitutas e ladrões. Pelo contrário, os principais emissários e agentes de Satanás foram os mais devotos, os mais santos, os mais respeitados líderes religiosos em todo o Israel — liderados pela mais rígida de todas as suas seitas, os fariseus.

Toda essa estratégia foi, sem dúvida alguma, armada e iniciada pelo próprio Satanás. Na verdade, tudo o que Paulo quer dizer em 2 Corintios 11:14,15 é que o subterfúgio secreto é e sempre foi a principal tática do diabo. Portanto, não deveria nos surpreender o fato de que os inimigos do evangelho sempre foram (e ainda são) mais terríveis quando religiosos. Quanto mais conseguirem convencer as pessoas de que eles fazem parte do círculo da ortodoxia, mais eficientes serão no sentido de corroer a verdade. Quanto mais fundo puderem infiltrar-se na comunidade de verdadeiros cristãos, mais danos poderão causar com suas mentiras. Quanto mais perto conseguirem chegar das ovelhas e ganhar a confiança delas, mais facilidade poderão ter para devorar o rebanho.

Danças com lobos

Qualquer pastor, no sentido literal da palavra, incumbido de alimentar e conduzir um rebanho de ovelhas, seria tido como louco se achasse que lobos poderiam ser animais de estimação domesticados e trazidos para o curral. Suponhamos que ele, efetivamente, procurasse e tentasse fazer amizade com filhotes de lobos, presumindo que conseguiria ensiná-los a se relacionar com seu rebanho — insistindo contra todos os conselhos sábios de que sua experiência poderia dar certo, e, se desse, os lobos teriam a mansidão das ovelhas e as ovelhas aprenderiam coisas com os lobos também. Esse pastor seria mais do que inútil; ele mesmo representaria um grande perigo para o rebanho.

Quase tão ruim seria um pastor com visão míope. Ele nunca viu claramente um lobo com seus próprios olhos. Assim, acredita que a ameaça dos lobos é um grande exagero. Mesmo com suas ovelhas desaparecendo ou sendo dilaceradas por alguma coisa, ele se recusa a acreditar que são os lobos que estão fazendo mal ao seu rebanho. Afirma estar cansado de ouvir os outros com suas advertências estridentes contra os lobos. Começa a contar a história de “O menino que gritava lobo” para todos que vão ouvir. Por fim, concluindo que a “negatividade” das outras pessoas em relação aos lobos representa um perigo maior para seu rebanho do que os próprios lobos, pega seu instrumento de sopro e toca uma música suave para fazer os cordeiros adormecerem.

Então, é claro, temos “o assalariado [que] não é o pastor a quem as ovelhas pertencem”. Ele “vê que o lobo vem, abandona as ovelhas e foge. Então o lobo ataca o rebanho e o dispersa. Ele foge porque é assalariado e não se importa com as ovelhas” (João 10:12-13). Assalariados egoístas, pastores míopes e pessoas que agem como domadores de lobos predominam na igreja, hoje. O mesmo acontece com os lobos vestidos de ovelhas. Francamente, algumas roupas pós-modernas feitas de lã de ovelha não são nem um pouco convincentes. Mas parece que alguns pastores não ficam indecisos quando o assunto é soltar esses lobos sedentos entre seus rebanhos. Muitos são como o pastor míope de minha parábola — convencido de que as advertências sobre a ameaça de lobos pode ser mais perigosa do que os verdadeiros lobos.

Parece que o evangelicalismo contemporâneo, em geral, não aprecia em absoluto nenhum tipo de atrito doutrinário — muito menos o conflito manifesto com lobos espirituais. O Manifesto Evangélico que citei na introdução deste livro claramente reflete esse ponto de vista, expressando muito mais palavras de preocupação com as relações públicas evangélicas do que com a solidez das doutrinas. O documento confidencialmente afirma que “a mensagem evangélica, ‘as boas novas’ por definição, é impressionante- mente positiva, e sempre positiva antes de ser negativa”.4 Isso é um grande exagero — especialmente quando consideramos o fato de que o esboço sistemático do evangelho feito por Paulo em Romanos começa com as palavras: “Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus” (Romanos 1:18), e depois continua por quase três capítulos inteiros explicando a profundidade e universalidade da “impiedade e injustiça” dos homens, que é o que provocou, em primeiro lugar, a ira de Deus. Só depois que deixa claro que não se pode escapar da má notícia é que Paulo apresenta as boas novas do evangelho. Ele segue o mesmo padrão na forma abreviada de Efésios 2:1-10.

Como veremos, o próprio Jesus nem sempre foi positivo antes de ser negativo. Alguns de seus discursos mais longos, incluindo toda a passagem de Mateus 23, foram completamente negativos.

O recente Manifesto Evangélico faz uma menção favorável “àqueles no passado por seu digno desejo de serem fiéis aos fundamentos da fé”, mas, por outro lado, parece sugerir que a militância em defesa das verdades centrais do Cristianismo sempre deve ser evitada. Na verdade, a principal razão que o manifesto oferece para listar o “fundamentalismo conservador” como uma das duas adulterações contrárias do verdadeiro espírito protestante (sendo a outra o “revisionismo liberal”) é que determinados fundamentalistas resistiram à tendência liberalizante com “estilos de reação que são pessoal e publicamente militantes a ponto de serem subcristãos”.5

O que se reconhece é que supostos fundamentalistas, muitas vezes, comportam-se de maneira vergonhosa. É certo que a rivalidade ciumenta entre determinadas personalidades “fundamentalistas” de envergadura com frequência foi muito pública e muito pessoal — e, decididamente, sub cristã. Na realidade, a agressividade de alguns líderes fundamentalistas rompeu seu movimento e deixou o fundamentalismo clássico, hoje, sem muitas vozes influentes. Mas, para ser claro, o problema com esse estilo de militância nunca foi simplesmente que ela era muito pessoal ou muito pública, mas que estava completamente equivocada e cada vez mais fundamentada na ignorância, e não no entendimento. Parecia que muitos que estavam à frente desse movimento não entendiam muito bem o que realmente era fundamental e o que era periférico. Em outras palavras, eles não eram nem um pouco fundamentalistas no sentido original da palavra. Tinham o estranho dom de se preocupar com coisas pequenas enquanto ignoravam coisas terríveis. Isso não é fundamentalismo autêntico, mas uma deturpação dele. Na verdade, é uma encarnação moderna do espírito farisaico.

A resposta para o fracasso do fundamentalismo, sem dúvida, não está no fato de os evangélicos renegarem completamente o conflito e aceitarem lobos com um sorriso acolhedor e diálogo amigável. Inquestionavelmente, é nesse sentido que a corrente evangélica está seguindo no momento. O Manifesto Evangélico faz observações como essas sobre os perigos do fundamentalismo enquanto, implicitamente, reconhece que o próprio movimento evangélico está seriamente confuso e precisa ser reformado com urgência. Dos “três principais imperativos” que o Manifesto lista, reafirmar nossa identidade vem em primeiro lugar.6 Contudo, em nenhum momento o documento sugere alguma estratégia para lidar com as muitas opiniões extravagantes (incluindo incontáveis ecos do “revisionismo liberal”) que, no momento, estão exigindo aceitação evangélica. Na verdade, o Manifesto como um todo parece, de modo deliberado, emudecido de maneira a não dar a ninguém a impressão de que pontos de vista alternativos estão excluídos da conversa evangélica. “Nosso objetivo não é atacar ou excluir, mas recordar e reafirmar.”7 Afinal, “diferentes crenças e os diferentes grupos de crenças oferecem respostas muito diferentes para a vida, e essas diferenças são decisivas não só para os indivíduos, mas também para as sociedades e civilizações inteiras. Aprender a conviver com nossas maiores diferenças é, portanto, de grande importância tanto para indivíduos como para nações”.8 Duvido que Paulo ou Jesus insinuariam isso.

O problema é que a reforma necessária dentro do evangelicalismo não ocorrerá de fato se as falsas ideias que enfraquecem nossas convicções teológicas essenciais não puderem ser abertamente atacadas e excluídas. Quando a coexistência pacífica “com nossas maiores diferenças” torna-se uma prioridade e o conflito em si é demonizado como algo inerentemente sub cristão, toda e qualquer falsa crença religiosa pode — e irá — exigir uma voz idêntica na “conversa”.

Na verdade, isso já vem acontecendo há algum tempo. Veja, por exemplo, o que disseram algumas das principais vozes dentro e em torno do movimento de emergentes. Tony Campolo é um autor e palestrante popular, o qual tem grande influência em círculos evangélicos. Ele acredita que os evangélicos deveriam dialogar com o islamismo, à procura de um denominador comum. Em uma entrevista realizada por Shane Claiborne, Campolo disse:

Acho que as últimas eleições irritaram uma minoria significativa da comunidade evangélica, acreditando que não queriam dar a impressão de ser contra homossexuais, contra as mulheres, contra o meio ambiente, a favor de guerras, a favor da pena de morte e contra o islamismo. Haverá um segmento do evangelicalismo, assim como há um segmento do islamismo, que não estará interessado em diálogo. Mas há outros evangélicos que vão querer conversar e firmar um compromisso comum de integridade com o povo islâmico e o povo judeu, em particular.9

Brian McLaren talvez seja a figura mais conhecida na conversa sobre emergentes. Ele acha que o futuro do planeta — sem falar na salvação da própria religião (incluindo o Cristianismo) — depende de uma busca cooperativa pelo verdadeiro significado da mensagem de Jesus. Na avaliação de McLaren, isso significa um constante diálogo entre cristãos e seguidores de todas as outras religiões. Ele está convencido de que isso é da maior urgência:

Em uma era de terrorismo global e de crescentes conflitos religiosos, é significativo notar que todos os muçulmanos consideram Jesus como um grande profeta, que muitos hindus estão dispostos a considerar Jesus como uma manifestação legítima do divino, que muitos budistas veem Jesus como uma das pessoas mais iluminadas da humanidade e que o próprio Jesus era um judeu, e (este livro afirma) sem que se compreenda sua natureza judaica, não se pode compreender Jesus. Uma reavaliação compartilhada acerca da mensagem de Jesus poderia prover um espaço ímpar ou uma base comum para o diálogo religioso urgentemente necessário — e não parece ser um exagero dizer que o futuro de nosso planeta talvez dependa desse diálogo. Essa reavaliação da mensagem de Jesus pode ser o único projeto capaz de salvar várias religiões, incluindo o Cristianismo […].10

A congenialidade indiscriminada, a busca pela base comum em termos espirituais e a paz a qualquer preço, naturalmente, têm grande apelo, especialmente em um clima intelectual em que praticamente a pior gafe que uma pessoa séria poderia dar é afirmar saber o que é verdadeiro quando tantas outras pessoas acreditam que outra coisa seja verdade. Além disso, o diálogo parece mais agradável que o debate. Quem, senão um tolo, não preferiria uma conversa calma a conflitos e confrontos?

Na verdade, vamos afirmar isso claramente mais uma vez: de modo geral, evitar conflitos é uma boa ideia. Cordialidade e congenialidade normalmente são preferíveis à fria aspereza. Civilidade, compaixão e boas maneiras estão escassas, e deveríamos ter mais dessas qualidades. Gentileza, uma resposta branda e uma palavra amável geralmente dão mais resultados do que uma discussão ou uma repreensão. Aquilo que edifica dá mais frutos com o passar do tempo do que a crítica. Cultivar amigos é mais agradável e mais proveitoso do que partir para o ataque de inimigos. E, comumente, é melhor ser carinhoso e manso do que grosso ou agressivo — principalmente com as vítimas de falsos ensinamentos.

Contudo, essas palavras restritivas são vitais: normalmente, comumente, geralmente. Evitar conflitos nem sempre é o certo. Às vezes, é claramente pecado. Principalmente em tempos como estes, quando quase nenhum erro é considerado sério demais para ser excluído da conversa evangélica e em que lobos vestidos de profetas, declarando visões de paz quando não há paz (cf. Ezequiel 13:16), estão se infiltrando no rebanho do Senhor. Até o pastor mais amável e mais gentil, às vezes, precisa jogar pedras nos lobos que vêm vestidos de ovelhas.

Jesus sempre foi “bonzinho”?

O Grande Pastor nunca esteve longe de controvérsias abertas com os moradores religiosos de maior notoriedade em todo o Israel. Quase todos os capítulos dos evangelhos fazem alguma referência à sua contínua luta contra os principais hipócritas de sua época, e ele não fez nenhum esforço para ser simpático em seus encontros com eles. Não os convidou para o diálogo nem participou de uma amigável troca de ideias.

Como veremos, o ministério público de Jesus mal estava encaminhado quando invadiu o que consideravam como sendo território deles — a área do templo em Jerusalém — e partiu para um comportamento violento e justificado contra o controle mercenário que tinham da adoração de Israel. Fez o mesmo novamente durante a última semana que antecedeu sua crucificação, logo depois de sua entrada triunfal na cidade. Um de seus últimos discursos públicos importantes foi o solene pronunciamento dos sete “ais” contra os escribas e fariseus. Essas foram maldições formais contra eles. Aquele sermão foi a coisa mais distante de um diálogo amigável. O registro do sermão feito por Mateus ocupa um capítulo inteiro (Mateus 23) e, como foi observado anteriormente, está totalmente desprovido de qualquer palavra positiva ou promissora para os fariseus e seus seguidores. Lucas refina e resume toda a mensagem em três pequenos versículos — Lucas 20:45-47: Estando todo o povo a ouvi-lo, Jesus disse aos seus discípulos: ‘Cuidado com os mestres da lei. Eles fazem questão de andar com roupas especiais, e gostam muito de receber saudações nas praças e de ocupar os lugares mais importantes nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes. Eles devoram as casas das viúvas, e, para disfarçar, fazem longas orações. Esses homens serão punidos com maior rigor!’

Esse é um resumo perfeito do modo como Jesus lidava com os fariseus. É uma forte denúncia — uma crítica pungente e declarada sobre a seriedade do erro deles. Não há conversa, não há coleguismo, não há diálogo e não há cooperação. Somente confrontação, condenação e (como registra Mateus) maldições contra eles.

A compaixão de Jesus, sem dúvida, é evidente em dois fatos que delimitam esse discurso. Primeiro, Lucas diz que, ao se aproximar da cidade e observar todo o seu panorama nessa última vez, Jesus parou e chorou sobre ela (Lucas 19:41-44). E, segundo, Mateus registra um lamento similar no final dos sete “ais” (Mateus 23:37). Assim, podemos ter plena certeza de que, enquanto Jesus fazia essa crítica pungente, seu coração estava cheio de compaixão.

Contudo, essa compaixão está voltada para as vítimas dos falsos ensinamentos, não para os falsos mestres. Não há nenhuma sugestão de empatia, nenhuma proposta de clemência, nenhum traço de bondade, nenhum esforço da parte de Jesus de ser “bonzinho” com os fariseus. Na verdade, com essas palavras, Jesus formal e sonoramente pronunciou a destruição deles e depois os expôs publicamente como uma advertência para os outros.

Isto é completamente o oposto de qualquer convite ao diálogo. Jesus não diz: “Eles são, basicamente, homens bons. Eles têm boas intenções. Eles têm algumas visões espirituais válidas. Vamos conversar com eles.” Pelo contrário, diz: “Mantenham distância. Cuidado com o estilo de vida e a influência deles. Sigam-nos e terão a mesma condenação que eles.”

Essa visão certamente teria levado Jesus a receber uma manifestação estrepitosa de sonora desaprovação da parte dos guardiões do protocolo evangélico de hoje. Na realidade, sua visão dos fariseus ridiculariza os pontos fundamentais da sabedoria convencional entre evangélicos modernos e pós-modernos — a predisposição neoevangélica ao coleguismo eterno e à obsessão dos emergentes por juntar todos os pontos de vista em uma conversa interminável. Segundo os parâmetros de hoje, as palavras de Jesus sobre os fariseus e o modo como ele os trata são impressionantemente severos. Voltemos ao início do ministério de Jesus e observemos como começou e como se desenvolveu a hostilidade entre ele e os fariseus.

Acredito que muitos leitores ficarão surpresos ao descobrirem que foi Jesus quem fez a primeira investida. E foi um ataque incrivelmente forte.

 

 

 

 

NOTAS:

  1. “An Evangelical Manifesto: A Declaration of Evangelical Identity and Public Commitment”, Washington, D.C., 7 de maio de 2008.
  2. Ibid, 9.
  3. Ibid, 4.
  4. Ibid, 5.
  5. Ibid, 3.
  6. CAMPOLO, Tony e CLAIBORNE, Shane. On Evangelicals and Interfaith Cooperation”, Cross Currents, primavera de 2005, vol. 55, n.°1. (Disponível em www.crosscurrents.org/ CompoloSpring2005.htm.) Campolo não está defendendo o diálogo meramente para o bem da paz política ou da harmonia cultural. Ele está chamando expressamente um diálogo religioso entre evangélicos e muçulmanos com o objetivo de uma “cooperação interreligiosa”. Subjacente a toda a entrevista parece estar uma sugestão de que os cristãos deveriam tratar o Islã como sendo igual (e como um potencial parceiro) em questões espirituais (começando com a busca pela “bondade”). Claiborne abre a entrevista dizendo que ela foi feita a pedido de um “devoto irmão muçulmano”. Embora Campolo declare que esse recém-descoberto espírito de irmandade com outras religiões não significa necessariamente que tenhamos de “abrir mão de tentar converter os outros”, imediatamente acrescenta que isso significa que devemos parar de dizer que muçulmanos que rejeitam Cristo estão em perigo de condenação eterna. Ele até mesmo sugere fortemente que este é um aspecto em que os muçulmanos são moralmente superiores aos cristãos: “A comunidade muçulmana é muito evangelística, no entanto o que os muçulmanos não fazem é condenar judeus e cristãos ao inferno se eles, de fato, não aceitarem o islã […] O Islã é muito mais misericordioso em relação aos cristãos evangélicos que são fiéis ao Novo Testamento que os cristãos são com respeito ao povo islâmico que é fiel ao Corão.” Ser “misericordioso”, na definição de Campolo, parece requerer a recusa de dizer claramente que as crenças de outras pessoas são erradas — até mesmo quando elas estão terrivelmente erradas. Campolo acrescenta: “Eu pen- so que há irmãos e irmãs muçulmanos que desejam dizer: ‘Você põe em prática a verdade como você a entende. Eu vou pôr em prática a verdade como eu a entendo, e deixemos isso para Deus mostrar no dia do juízo.’” Ele diz mais: “Há muito na fé cristã que pode sugerir exatamente a mesma ideia.” Na verdade, não há nada nas Escrituras que justifique aceitar pessoas de outras religiões como “irmãos e irmãs” ou manter esse tipo de diálogo entre crenças. Na verdade, as Escrituras enfaticamente proíbem- nos de buscar terreno espiritual em comum ou cooperação com religiões falsas (2 Corintios 6:14-17).
  7. MCLAREN, Brian. A mensagem secreta de Jesus: desvendando a verdade que poderia mudar tudo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2007.

 

 

Autor: John MacArthur

Trecho extraído do livro A outra face, pág 51-62.

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