Aquilo que não prova que nossas emoções vêm de uma verdadeira experiência de salvação

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Emoções religiosas podem ser naturais ou espirituais na sua origem. Podem existir em pessoas que não são salvas, assim como naquelas que são verdadeiramente convertidas. Nesta parte do livro, vou examinar experiências que não provam que nossas emoções sejam espirituais nem que não sejam espirituais em sua natureza. Noutras palavras, quero que examinemos experiências que nada nos dizem quanto à espiritualidade ou não de nossas emoções. 

Experiências fortes e vivas não provam que nossas emoções sejam espirituais ou não

Algumas pessoas condenam todas as emoções fortes. Têm preconceito contra qualquer um com sentimentos poderosos relacionados a Deus e coisas espirituais. Instantaneamente pressupõem que tais pessoas estão iludidas. Mas se a verdadeira religião reside em nossas emoções, como provei, segue-se que grandes porções da verdadeira religião na vida de alguém produzirá grandes emoções. Amor é uma emoção: acaso algum cristão diria que não devemos amar a Deus e a Jesus Cristo em grande medida? Ou ainda, alguém diria que não deveríamos sentir enorme ódio e tristeza em relação ao pecado? Ou que não deveríamos ter grande gratidão a Deus por Sua misericórdia? Ou ainda, que não deveríamos desejar muito a Deus e à santidade? Porventura algum cristão poderia dizer: “Estou totalmente satisfeito com a medida do amor e gratidão que sinto para com Deus, e com o ódio e tristeza que sinto quanto ao pecado? Não haveria necessidade de orar para ter uma experiência mais profunda dessas coisas?” Em 1 Pedro 1:8 fala-se de emoções fortes e intensas quando diz: exaltais com alegria indizível e cheia de glória.

De fato, as Escrituras requerem, muitas vezes, sentimentos fortes. No primeiro e grande mandamento, as Escrituras exaurem os recursos da linguagem para expressar o grau em que deveríamos amar a Deus: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Mc 12:30). As Escrituras também nos ordenam que sintamos grande alegria: “Os justos, porém, se regozijam, exultam na presença de Deus e folgam de alegria” (Sl 68:3). Frequentemente nos chamam a sentir grande gratidão pelas misericórdias de Deus.

Os crentes mais notáveis, cujas experiências são registradas nas Escrituras, muitas vezes expressam emoções intensas. Tomemos como exemplo o salmista. Ele menciona seu amor como sendo indizível: Quanto amo a tua lei!(Sl 119:97). Ele descreve altos graus de anseio espiritual: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma” (Sl 42:1). Fala de grande dor pelos seus próprios pecados e pelos pecados dos outros: “Pois já se elevam acima de minha cabeça as minhas iniquidades; como fardos pesados excedem as minhas forças” (Sl 38:4). Torrentes de água nascem dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei (Sl 119:136). Ele expressa fervorosa alegria e louvor espiritual: Porque a tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios te louvam. Assim cumpre-me bendizer-te enquanto eu viver; em teu nome levanto as mãos… à sombra das tuas asas eu canto jubiloso (Sl 63:3-4,7).

Isto prova que a existência de emoções religiosas em altíssimo grau não é necessariamente um sinal de fanatismo. Estamos seriamente errados se condenamos as pessoas como fanáticas somente porque suas emoções são fortes e vivas. Por outro lado, o fato de nossas emoções serem fortes e vivas não prova que sejam verdadeiramente espirituais em sua natureza. As Escrituras nos mostram que as pessoas podem se tornar excitadas sobre religião, sem serem verdadeiramente salvas. No Velho Testamento, por exemplo, a misericórdia de Deus para com os israelitas no êxodo moveu grandemente suas emoções, e cantaram Seus louvores, Ex. 15:1-21. Todavia, esqueceram Suas obras rapidamente. A dádiva da lei do Sinai os comoveu mais uma vez; pareciam cheios de entusiasmo santo, e bradaram: “Tudo o que o Senhor falou, faremos” (Ex l9:8). Não obstante, logo depois estavam adorando o bezerro de ouro!

No Novo Testamento, as multidões em Jerusalém professaram grande admiração por Cristo, e louvaram-no grandemente. Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas! (Mc 21:9). Contudo, quão poucos daqueles eram verdadeiros discípulos de Cristo. Logo as mesmas multidões gritariam, “Crucifica-O!… Crucifica-O!” (Mc 15:13-14). Todos os teólogos ortodoxos concordam que sentimentos sobre o cristianismo podem ser muito vigorosos sem nenhuma experiência autêntica da salvação.

O fato de nossas emoções produzirem grandes consequências no corpo não prova que sejam espirituais ou não

Todas as nossas emoções afetam nosso corpo. Isso resulta da íntima união entre corpo e alma, carne e espírito. Não surpreende, então, que fortes emoções tenham grande efeito no corpo. Entretanto, emoções fortes podem ser de origem natural ou espiritual. A presença de consequências corporais não prova que as experiências sejam simplesmente naturais ou verdadeiramente espirituais.

Emoções espirituais, quando poderosas e profundas, certamente podem produzir grandes efeitos físicos. O salmista diz: Meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo (Sl 84:2). Aqui encontramos uma clara diferença entre coração e corpo; sua experiência espiritual afetou a ambos. Diz ele, mais uma vez, a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja (Sl 63:1). De novo, há uma clara diferença entre alma e corpo.

O profeta Habacuque fala de sua sensação da majestade de Deus dominando seu corpo: Ouvi-o, e o meu íntimo se comoveu, à sua voz tremeram os meus lábios, entrou a podridão nos meus ossos, e os joelhos me vacilaram (Hb 3:16). Encontramos a mesma coisa no salmista: arrepia-se-me a carne com temor de ti (Sl 119:120).

As Escrituras nos falam de revelações da glória de Deus que tiveram poderosos efeitos corporais naqueles que as viram. Por exemplo, Daniel: “não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não retive força alguma” (Dn 10:8). Eis como o apóstolo João reagiu a uma visão de Cristo: Quando o vi, caí a seus pés como morto (Ap 1:17). Não adianta protestar dizendo que estas foram revelações aparentes e não espirituais, da glória de Deus. A glória exteriorizada foi um sinal da glória espiritual de Deus. Daniel e João teriam entendido isto. A glória aparente não os dominou somente por seu esplendor físico, mas precisamente por ter sido um sinal da infinita glória espiritual de Deus. Seria presunçoso dizer que em nossos dias Deus jamais dá ao crente visões espirituais de Sua beleza e majestade que produzem efeitos físicos semelhantes.

Por outro lado, efeitos físicos não provam que as emoções que os produziram sejam espirituais. Fortes emoções que não são verdadeiramente espirituais em sua origem podem produzir grandes efeitos físicos. Portanto, não podemos indicar o simples efeito físico como prova de que nossa experiência venha de Deus. Precisamos de outra maneira para testar a natureza das nossas emoções.

(Nota: Edwards gasta quase todo este capítulo argumentando que emoções espirituais produzem grandes efeitos físicos (não que elas sempre ou até normalmente o façam). Devemos lembrar-nos que ele escrevia no contexto de um dos maiores avivamentos conhecidos na história da Igreja, quando as pessoas tendiam a desmaiar, chorar e tremer sob a poderosa pregação da Palavra de Deus. Edwards estava preocupado em defender a integridade do avivamento contra a acusação de que tais fenômenos físicos provavam que era tudo meramente histeria. Talvez em nossos dias – no momento em que escrevemos não são dias de avivamento – Edwards pudesse ter alterado sua ênfase de algum modo, e acentuando que a vivacidade física na adoração não é garantia de que seja genuína ou que o Espírito Santo esteja presente! – N.R.N.).

Emoções que não são produzidas por nosso próprio esforço podem ou não ser espirituais

Muitos condenam todas as emoções que não resultam da produção natural da mente. Ridicularizam a ideia de podermos de fato sentir o Espírito Santo operando poderosamente em nós. O Espírito, dizem, sempre opera em silêncio, de modo invisível. Insistem que Ele só opera mediante as verdades da Bíblia e através dos nossos próprios esforços, isto é, a oração. Portanto, concluem, não temos como distinguir entre a obra do Espírito e as operações naturais de nossas próprias mentes.

É verdade que não temos direito de esperar que o Espírito de Deus opere em nós se negligenciarmos coisas como o estudo bíblico e a oração. É também verdade que o Espírito opera de formas diferentes – às vezes silenciosa e invisivelmente. Mesmo assim, se a experiência de salvação nos vem de Deus, por que não deveríamos senti-la? Não produzimos salvação por nossos próprios esforços. A operação natural de nossas mentes não produz salvação. É o Espírito do Todo-poderoso que produz salvação em nossos corações. Por que, então, não deveríamos sentir que o Espírito opera em nós? Se sentimos isso, sentimos somente o que é verdadeiro.

Estamos, portanto, errados ao tacharmos as pessoas de iludidas somente por dizerem que sentiram o Espírito Santo operando nelas. Chamar a isso de ilusão é como dizer: “Você sente que sua experiência é de Deus. Bem, isto prova que sua experiência não vem de Deus!”

As Escrituras descrevem a salvação de um pecador como um renascimento (Jo 3:3), uma ressurreição da morte (Ef 2:5), uma nova criação (2Co 5:17). Essas descrições têm uma coisa em comum. Todos descrevem eventos que não poderiam ser produzidos pela pessoa que os experimentou. Somente Deus é autor da regeneração do pecador, ressurreição espiritual e nova criação. Porventura um pecador que tem a experiência de Deus operando em sua vida desse modo, não perceberá que é Ele que o está salvando? Sem dúvida é por isso que as Escrituras descrevem a salvação como regeneração, ressurreição e nova criação. Essas palavras testemunham o fato de que a experiência de salvação não se origina em nós mesmos.

Na salvação, Deus opera com um poder que é, obviamente mais que humano. Dessa forma Ele nos impede de nos vangloriar do que nós fizemos. Por exemplo, quando Deus salvou a Seu povo, nos dias do Velho Testamento, sua experiência tornou claro que não haviam salvo a si próprios. Quando Deus os tirou do Egito, por ocasião do êxodo, primeiro permitiu que sentissem seu próprio desamparo; então os redimiu por Seu poder miraculoso. Ficou claro para eles que Deus era seu Salvador.

Vemos a mesma experiência do poder de Deus na maioria das conversões descritas no Novo Testamento. O Espírito Santo não convertia as pessoas de modo silencioso, oculto e gradual. Geralmente convertia-as com uma demonstração gloriosa de poder sobrenatural. Hoje as pessoas muitas vezes vêem tais experiências de conversão como um sinal certo de ilusão.

Por outro lado, não devemos pensar que nossas emoções sejam verdadeiramente espirituais somente porque não as produzimos com os nossos próprios esforços. Algumas pessoas tentam provar que suas emoções são do Espírito Santo com o seguinte argumento:

“Não produzi esta experiência por mim mesmo. A experiência veio a mim quando não a estava buscando. Não posso fazê-la voltar de novo por meus próprios esforços.”

Esse argumento não é saudável. Uma experiência que não venha de nós mesmos pode vir de um espírito falso. Existem muitos espíritos falsos que se disfarçam como anjos de luz (2Co 11:14). Imitam o Espírito de Deus com grande maestria e poder. Satanás pode operar em nós, e podemos diferenciar a obra dele do funcionamento natural de nossas mentes. Por exemplo, satanás enche as mentes de algumas pessoas com blasfêmias terríveis e sugestões vis. Essas pessoas têm certeza que essas blasfêmias e sugestões satânicas não vêm de suas próprias mentes. Penso que é igualmente fácil para o poder de satanás encher-nos de confortos e alegrias falsos. Certamente sentiríamos que esses confortos e alegrias não vieram de nós mesmos. Entretanto, isso não provaria que vieram de Deus! Os transes e arrebatamentos de alguns fanáticos religiosos não são de Deus, e sim, de satanás.

Também podemos ter experiências que vêm do Espírito de Deus, as quais não nos salvam nem provam que somos salvos. Lemos em Hb 6:4-5 sobre pessoas que uma vez foram iluminadas e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, mas que enfim se revelaram ser incrédulas (vs. 6-8).

Experiências religiosas também podem ocorrer sem a influência de um espírito bom ou mau. Pessoas impressionáveis e com imaginação viva podem ter emoções estranhas e impressões que não foram produzidas por seus próprios esforços. Não produzimos sonhos por nossos esforços quando estamos dormindo. Pessoas imaginativas podem ter sentimentos e impressões religiosas que são como sonhos, embora estejam acordadas.

A existência de muitos tipos de emoções não prova que sejam ou não espirituais

Certamente existem imitações de todos os tipos de emoções espirituais. Acabamos de ver como as pessoas podem imitar o amor cristão, mas existem também imitações de outras emoções espirituais.

Eis alguns exemplos: o rei Saul tinha uma tristeza falsa pelo pecado (1Sm 15:24-5; 26:21). Os samaritanos tinham um falso temor a Deus (2Rs 17:32-3). Naamã, o sírio teve uma falsa gratidão depois da cura miraculosa de sua lepra (2Rs 5:15). Na parábola de Jesus sobre o semeador, o terreno pedregoso representa pessoas com falsa alegria espiritual (Mt 13:20). O apóstolo Paulo, antes de sua conversão, tinha um falso zelo por Deus (Gl 1:14; Fp 3:6). Depois de sua conversão, Paulo disse que muitos judeus incrédulos tinham esse zelo falso (Rm 10:2). Muitos fariseus tinham uma esperança falsa da vida eterna (Lc 18:9-14; Jo 5:39-40).

Assim, pessoas não salvas podem ter todos os tipos de emoções falsas que se parecem com as verdadeiras emoções espirituais. Afinal, não há razão para que não tenham muitas dessas emoções ao mesmo tempo. Por exemplo, as multidões que acompanhavam Jesus a Jerusalém parecem ter tido muitas emoções religiosas simultaneamente. Estavam cheias de admiração e amor por Jesus; mostraram grande reverência por Ele, e colocaram suas roupas no chão para que Ele andasse sobre elas. Expressaram grande gratidão pelas boas obras que Ele houvera feito. Manifestaram fortes desejos pelo reino vindouro de Deus, e tinham grande esperança que Jesus estivesse por estabelecê-lo. Estavam cheias de alegria e zelo em seus louvores a Jesus e em sua ansiedade em acompanhá-lo. Todavia, quão poucas dessas pessoas eram verdadeiros discípulos de Jesus!

A existência de muitas emoções falsas simultaneamente, na mesma pessoa, não é mistério. Quando uma emoção forte surge, naturalmente produz outras emoções. Este é especialmente o caso se a primeira emoção que aparece é amor. Como já disse, o amor é a principal das emoções, e (de certo modo) ele é a fonte de muitas outras.

Imagine alguém que por longo período sentiu medo do inferno. Satanás veio e levou-o a pensar que Deus perdoou seus pecados. Suponhamos, então, que satanás o tenha enganado através da visão de um homem com um lindo sorriso no rosto e com os braços abertos. O pecador entendeu ser essa uma visão de Cristo. Ou talvez satanás o tenha iludido com uma voz dizendo: Filho, seus pecados são perdoados – uma voz que o pecador pensou ser a voz de Deus. Assim, esse pecador creu que era salvo, mesmo não tendo compreensão espiritual do evangelho.

Que diversidade de emoções viriam à mente desse pecador! Ele estaria cheio de amor por seu salvador imaginário, que pensa tê-lo salvo do inferno. Estaria cheio de gratidão por sua salvação imaginária. Sentiria uma irresistível alegria. Suas emoções o moveriam a falar a outros de sua experiência. Seria fácil para ele ser humilde ante seu deus imaginário. Negaria a si mesmo e promoveria zelosamente sua religião imaginária, enquanto o calor de suas emoções durassem.

Todas essas emoções religiosas podem surgir juntas dessa forma. Ainda assim, a pessoa que figuramos experimentando essas emoções não é cristã! Suas emoções vieram da função natural de sua própria mente, não da obra salvadora do Espírito de Deus. Qualquer um que duvide dessa possibilidade tem pouca compreensão da natureza humana.

Não podemos saber se as emoções de alguém são espirituais ou não somente por seu relato comovente

Nenhum cristão pode distinguir infalivelmente entre crentes verdadeiros e falsos. Um cristão pode sondar o seu próprio coração, mas não pode sondar os corações dos outros. Tudo o que podemos ver nos outros é a aparência exterior. As Escrituras ensinam claramente que nunca podemos julgar infalivelmente o coração de uma pessoa através de sua aparência. “O Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” (1Sm 16:7).

Quando uma pessoa parece exteriormente, tanto como possamos ver, ser um cristão, é nosso dever aceitá-lo como um irmão em Cristo. Entretanto, mesmo o mais sábio dos cristãos pode ser iludido. Pessoas que pareciam ser notáveis convertidos muitas vezes têm abandonado a fé.

Isso não nos deveria surpreender. Já vimos como satanás pode imitar todos os tipos de emoções espirituais – amor por Deus e por Cristo e pelos cristãos, tristeza pelo pecado, submissão a Deus, humildade, gratidão, alegria, zelo. Todas essas emoções imitadas podem aparecer ao mesmo tempo na mesma pessoa. Essa pessoa pode também ter um bom conhecimento da doutrina cristã, uma personalidade agradável e uma notável habilidade poderosa para se expressar na linguagem cristã.

Quão grande, então, pode ser a semelhança entre um falso e um verdadeiro cristão! Somente Deus pode infalivelmente diferenciá-las. Seríamos arrogantes se fingíssemos poder fazê-lo. Dar um relato comovente de seus sentimentos e experiências não prova que alguém seja um verdadeiro cristão. Qualquer coisa que pareça obra de Deus está fadada a ser comovente para um crente. Crentes amam ver pecadores convertidos. Não surpreende, portanto, que nossos corações sejam tocados quando alguém professa ser convertido e dá um relato plausível de sua experiência. Ainda assim, isso não prova que sua conversão seja genuína.

As Escrituras nos dizem para julgarmos pela vida da pessoa, não por sua fala, porque as declarações de serem cristãos, que as pessoas fazem, são como os botões na primavera. São muitos os botões nas árvores e todos parecem maravilhosos, porém logo muitos perecerão, cairão e apodrecerão. Por um tempo, parecem tão lindos como os outros botões e seu perfume é doce. Não podemos distinguir os botões que darão fruto daqueles que cairão e morrerão. Somente depois podemos notar a diferença, quando alguns e outros tiverem dado fruto.

O mesmo se dá com as coisas espirituais. Devemos julgar pelo fruto, não pelas lindas cores e aroma do botão. Pessoas que se dizem convertidas podem (por assim dizer) parecer lindas, transmitir aromas agradáveis e fazer emocionantes relatos de sua experiência. Entretanto, tudo pode resultar em nada. Conversa não prova coisa alguma. Devemos julgar pelo fruto – pelos resultados duradouros nas vidas das pessoas. (Mesmo aqui, não podemos julgar infalivelmente, mas o modo como vivem os cristãos professos é a melhor prova que podemos ter de sua sinceridade e salvação).

Alguns argumentam o seguinte: “Se sinto um forte amor cristão por outro cristão, o Espírito Santo deve ter produzido esse amor. No entanto o Espírito não pode errar. Se o Espírito produz esse amor, eu devo saber que a outra pessoa é um verdadeiro cristão.”

Esse argumento é completamente falso. Deus nos ordenou a amar como nossos irmãos cristãos todos que fazem uma confiável profissão de fé em Cristo. Assim, um forte amor cristão por outro cristão professo prova somente que o Espírito de Deus está nos permitindo obedecer ao mandamento de Deus. Não prova que o cristão professo a quem amamos seja um verdadeiro cristão.

De qualquer forma, a Bíblia não conhece nada dessa ideia que podemos julgar a condição espiritual de outra pessoa pelo amor que sentimos por ela. Essa ideia não só está ausente da Bíblia, ela contradiz a própria Bíblia. A Palavra de Deus ensina claramente que ninguém pode estar totalmente seguro sobre a condição do coração de outro em relação a Deus. Paulo diz, judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus (Rm 2:29). Por essa última expressão, cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus, Paulo ensina que os homens não podem julgar se outro homem é um judeu interiormente. Os homens podem ver pelos sinais exteriores que um outro é exteriormente um judeu, porém somente Deus pode ver o interior de um homem.

Paulo ensina a mesma verdade em 1Coríntios 4:5: nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá o seu louvor da parte de Deus. Certamente estaremos sendo muito arrogantes se pensarmos que podemos julgar os corações dos homens, visto que o apóstolo Paulo não pensava que ele podia!

 

 

Autor: Jonathan Edwards

Trecho extraído do livro A genúina experiência espiritual, pág 25-46. Editora: Pés 

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